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Circle of Inevitability
Pesadelo - Capitulo 1-10 - 136 min

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Circle of Inevitability - Capítulo Um: – Estrangeiros.
Sempre é cobrado um preço pelo que o destino concede — adaptado de Mary Queen of Scots, de Zweig.
— Sou um ninguém, sem tempo para perceber o brilho do sol.
— Meus pais não podiam me ajudar e eu não tinha muita educação. Não tive escolha a não ser sobreviver sozinho na cidade.
— Eu me candidatei a muitos empregos, mas ninguém nunca me contratou. Talvez seja porque não sou bom em me expressar e não sou o melhor comunicador. Acho que simplesmente não demonstrei habilidade suficiente.
— Certa vez, comi dois pães durante três dias. A fome me manteve acordado à noite. Pelo menos paguei um mês de aluguel adiantado, para não ter que enfrentar o vento frio do inverno lá fora.
— Finalmente consegui um emprego no necrotério do hospital, vigiando os mortos.
— A noite no hospital era mais fria do que eu jamais poderia imaginar. As luzes das paredes do corredor estavam apagadas, deixando tudo envolto em escuridão.
— Mon Dieu, cheirava a algo forte. O cheiro da morte permanecia no ar. E de vez em quando, tínhamos que ajudar a transportar os corpos para o necrotério.
Nota: Mon Dieu, traduzido do francês: meu deus
— Não era o trabalho mais glamoroso, mas colocava pão na mesa. Além disso, o tempo livre da noite me permitia estudar. Poucas pessoas se aventuravam no necrotério, mas quando se aventuravam, estavam lá entregando corpos ou levando-os para a cremação. Tive de me virar sem livros, pois não tinha dinheiro para comprá-los, nem via qualquer esperança de economizar o suficiente para comprá-los.
— Mas tive que agradecer ao meu antecessor por ter saído tão repentinamente, pois isso me permitiu conseguir este emprego.
— Eu sonhava em trabalhar no turno diurno. Dormir durante o dia e ficar acordado à noite fazia meu corpo ficar fraco e minha cabeça latejar.
— Um dia, um novo cadáver foi trazido.
— Pelo que ouvi, é o corpo do meu antecessor que partiu de repente.
— Fiquei intrigado com o misterioso desaparecimento do meu antecessor e, assim que os outros saíram da sala, puxei o armário e abri silenciosamente o saco de cadáveres.
— Ele era um homem velho, com pele branco-azulada e rugas cobrindo o rosto. A pouca iluminação só servia para torná-lo mais assustador.
— Ele não tinha muito cabelo. A maior parte da pele era branca. Ele havia sido despido e não sobrou nem um pedaço de pano nele.
— Como um homem morto e sem família, os responsáveis pela mudança não resistiram à oportunidade de lucrar com o cara.
— Eu vi uma marca estranha em seu peito. Era preto-azulado. Não consigo explicar. A luz estava muito fraca naquele momento.
— Estendi a mão e toquei a marca, apenas para perceber que não havia nada de especial nela.
— Olhando para meu antecessor, não pude deixar de me perguntar se acabaria como ele quando envelhecesse…
— Prometi ao corpo dele que estaria com ele em sua última viagem, o levaria ao crematório e depois ao cemitério gratuito mais próximo. Eu não poderia permitir que os burocratas o jogassem no rio ou em alguma terra abandonada como lixo.
— Eu sabia que teria que sacrificar um pouco o sono, mas, graças a Deus, era domingo no dia seguinte. Eu poderia recuperar o sono perdido então.
— Depois de dizer isso, fechei o zíper do saco e coloquei-o de volta no armário.
— A sala ficou mais escura e as sombras se alongaram…
— Desde aquele dia, toda vez que fecho os olhos, sou engolido por uma névoa espessa.
— Algo me diz que não estou sozinho. Algo não muito humano está vindo em minha direção. Mas ninguém vai ouvir. Eles acham que perdi a cabeça neste trabalho; dizem que preciso de um médico…
Um cliente do sexo masculino sentado no bar olhou para o narrador, que parou de repente e perguntou: — E?
O narrador interrompeu repentinamente sua história, fazendo com que um cliente do bar notasse. Este sujeito de trinta e poucos anos usava um casaco de lona sem graça e abotoaduras amarelo-claras. Seu cabelo estava penteado para trás e ele tinha um chapéu-coco escuro e áspero ao lado.
Ele parecia comum, como o resto dos clientes da cervejaria, com cabelos escuros e olhos azuis penetrantes. Não era particularmente bonito, mas também não era repugnante. Nada nele gritava por atenção.
O narrador era um rapaz robusto no final da adolescência, com membros longos e feições esculpidas que poderiam fazer qualquer moça ficar com os joelhos fracos. Seu cabelo curto e preto e olhos azuis brilhantes apenas aumentavam seu charme.
O rapaz olhou melancolicamente para a taça de vinho vazia à sua frente e soltou um suspiro profundo.
— E então?
— Aí larguei meu emprego e voltei para o campo para poder contar essa besteira para vocês, — respondeu o rapaz com um sorriso malicioso se espalhando por seu rosto.
O cliente de sexo masculino ficou surpreso.
— Você estava apenas brincando com a gente?
— Haha! — A risada irrompeu no bar.
No entanto, durou pouco, pois um homem de meia-idade olhou severamente para o cliente um pouco envergonhado e comentou: — Você não é daqui, é? Lumian conta uma história diferente a cada dia. Ontem ele era um pobre cara que foi abandonado pela noiva e hoje é vigia dos mortos!
— Sim, ele fala sobre passar trinta anos a leste do rio Serenzo e depois trinta anos à direita dele. Ele é cheio de papo furado, esse aí! — acrescentou outro frequentador do bar.
Todos os homens eram agricultores da aldeia de Cordu, vestindo túnicas de cor desbotada.
O rapaz de cabelos negros, Lumian, inclinou-se sobre o balcão do bar e levantou-se. Ele deu um sorriso atrevido e proclamou: — Como todos sabem, não sou eu quem está inventando isso. Minha irmã escreve essas histórias. Ela é redatora de alguma coluna de jornal conhecida como Novel Semanal ou outra.
Com isso, Lumian se virou, abriu bem os braços e sorriu para o cliente estrangeiro.
— Parece que ela criou uma história e tanto.
— Sinto muito que você tenha entendido mal.
O homem comum de camisa tweed marrom sorriu e se levantou.
— Que história intrigante.
— E como posso me dirigir a você?
— Não é uma cortesia comum apresentar-se antes de perguntar aos outros? — Lumian respondeu, devolvendo o sorriso do homem.
O estrangeiro assentiu.
— Meu nome é Ryan Koss.
— Estes são meus companheiros, Valentine e Leah.
A última frase referia-se ao homem e à mulher sentados ao lado dele.
Valentine, um homem de quase trinta anos, cabelo loiro empoado e penetrantes olhos azuis, usava um colete branco, uma jaqueta tweed azul e calças pretas. Era evidente que ele havia feito um esforço considerável em seu traje, como se estivesse se preparando para um encontro especial.
Ele tinha uma expressão bastante fria no rosto, nem mesmo olhando para os fazendeiros e pastores ao seu redor.
Leah, por outro lado, era uma jovem atraente, com longos cabelos presos em um coque elaborado e um véu branco no topo da cabeça.
Seus olhos combinavam com seus cabelos e ela olhava para Lumian com um sorriso aberto, claramente divertida com a conversa deles.
À luz das lâmpadas a gás dentro do bar, a mulher chamada Leah exibia seu nariz pontudo e lábios incrivelmente curvados. Ela era definitivamente uma maravilha numa aldeia como Cordu.
Ela usava um vestido branco de caxemira plissado com um pequeno casaco esbranquiçado e um par de botas Marseillan. Havia dois sininhos de prata presos ao véu e às botas. Eles tilintaram quando ela entrou no bar, chamando a atenção de muitos — especialmente dos homens.
Aos olhos deles, esse era o tipo de roupa da moda que você só veria nas grandes cidades, como a capital da província de Bigorre ou mesmo a capital de Trier.
Lumian acenou em reconhecimento aos três estrangeiros.
— Meu nome é Lumian Lee. Podem me chamar de Lumian.
— Lee? — Leah deixou escapar.
— Qual é o problema? Vocês têm algum problema com meu sobrenome? — Lumian perguntou com uma expressão curiosa no rosto.
Ryan Koss decidiu explicar em nome de Leah: — Seu sobrenome é totalmente assustador. Quase perdi o controle da minha voz agora há pouco.
Observando as expressões perplexas dos agricultores e pastores ao seu redor, ele continuou:
— As pessoas que cruzaram o caminho de marinheiros e mercadores marítimos estão familiarizadas com um ditado que está circulando nos Cinco Mares:
— Prefiro ficar cara a cara com almirantes piratas ou mesmo com reis do que encontrar um cara chamado Frank Lee.
— O sobrenome dessa pessoa também é Lee.
— Ele é realmente tão assustador? — Lumian perguntou.
Ryan balançou a cabeça em resposta.
— Não tenho certeza, mas se tal lenda existe, então não pode estar longe da verdade.
Ele mudou de assunto e disse a Lumian: — Merci pela história. Merece uma bebida. O que você deseja?
Nota: Merci, obrigado em francês
— Um copo de La Fée Verte. — Lumian não fez rodeios e recostou-se em seu assento.
Nota: La Fée Verte, a fada verde.
Ryan Koss franziu a testa.
— La Fée Verte… Absinto?
Nota: O absinto é uma bebida destilada à base de anis e outras ervas, como losna e funcho.
— Devo lembrá-lo que o absinto é prejudicial ao corpo humano. Esse tipo de álcool pode levar à loucura e alucinações.
— Eu não esperava que as tendências de Trier chegassem até aqui, — Leah entrou na conversa com um sorriso.
Lumian reconheceu seu comentário concisamente.
— Então o povo de Trier também gosta de La Fée Verte…
— Para nós, a vida já é bastante difícil. Não há necessidade de nos preocupar com mais danos. Esta bebida pode acalmar nossas mentes.
— Tudo bem. — Ryan recostou-se na cadeira e virou-se para o barman. — Uma taça de La Fée Verte e outra taça de Cœur Épicé.
Nota: Cœur Épicé, coração picante.
Cœur Épicé era uma famosa bebida espirituosa à base de frutas que era destilada com perfeição.
O homem magro e de meia-idade que expôs as mentiras de Lumian falou. — Dê-me um copo de La Fée Verte também. Afinal, fui eu quem disse a verdade agora há pouco. Posso até contar a verdade sobre a situação desse garoto! — Ele olhou para Lumian, desafiando-o a se opor. — Estrangeiro, posso dizer que você ainda tem dúvidas sobre a autenticidade dessa história.
— Pierre, você faria qualquer coisa por um copo de álcool de graça, — retrucou Lumian, carrancudo.
Antes que Ryan pudesse responder, Lumian acrescentou: — Por que não posso contar minha história e pegar um copo extra de La Fée Verte?
— Porque ninguém sabe se deve acreditar em você, — Pierre sorriu. — A história favorita da sua irmã para contar às crianças é ‘O Menino que Clamou ao Lobo’. Pessoas que mentem o tempo todo acabam perdendo credibilidade.
Lumian encolheu os ombros e observou o barman colocar um copo de álcool verde claro na sua frente. — Ça va, disse ele, despreocupado.
Nota: Ça va traduzido seria algo como: “Idaí?”.
Ryan virou-se para Lumian.
— Esta tudo certo?
— Claro, contanto que sua carteira aguente, — Lumian respondeu alegremente.
— Nesse caso, outro copo de La Fée Verte, — disse Ryan com um aceno de cabeça.
O rosto de Pierre se iluminou com um sorriso.
— Estrangeiro generoso, você deveria ficar longe deste aí, — disse ele, apontando para Lumian. — Ele é o cara mais travesso de toda a vila.
— Há cinco anos, sua irmã Aurore o trouxe de volta para a aldeia, — continuou Pierre. — Ele está aqui desde então. Você pode imaginar? Ele era apenas um garotinho de treze anos na época. Como ele pôde ter feito a jornada até o hospital para se tornar um vigia de cadáveres? O hospital mais próximo fica em Dariège, no sopé da montanha. Levaria uma tarde inteira para chegar lá a pé.
— Trazido de volta para a aldeia? — Leah perguntou, sua voz cheia de suspeita.
Ela inclinou a cabeça, fazendo seus sinos tilintarem.
Pierre assentiu em confirmação.
— Aurore se mudou para cá há seis anos. Um ano depois, ela viajou e trouxe esse rapaz de volta com ela. Disse que o encontrou na estrada, uma criança faminta e sem teto. Ela planejava adotá-lo.
— Então, ele adotou o sobrenome de Aurore, Lee. Até seu nome, Lumian, foi dado por Aurore.
— Eu nem me lembro qual era meu nome antes de Aurore me dar o nome, — Lumian, imperturbável com a revelação, deu um sorriso e tomou um gole de absinto.
Estava claro que seu passado não o incomodava nem um pouco.
Circle of Inevitability - Capítulo Dois: – “Pegadinha”
Ryan pediu desculpas educadamente a Lumian. — Perdoe-me, eu não esperava tal situação, — disse ele.
Lumian riu.
— Você está sugerindo que precisamos de outro copo de La Fée Verte?
Sem esperar pela resposta de Ryan, ele mudou de assunto.
— O que traz estrangeiros como você a Cordu? Você está aqui para comprar lã ou couro?
Muitos dos residentes de Cordu ganhavam a vida como pastores.
Ryan deu um suspiro silencioso de alívio e aproveitou a oportunidade para explicar seu verdadeiro propósito.
— Viemos visitar o padre da Igreja do Eterno Sol Ardente, Guillaume Bénet, mas ele parece estar ausente tanto de sua casa quanto da catedral.
Pierre, que havia desfrutado do absinto gratuito de Ryan, lembrou-lhe gentilmente que só havia uma igreja em Cordu.
Os outros moradores ao redor do balcão do bar estavam todos bebendo, mas ninguém respondeu à pergunta de Ryan. O nome parecia representar algum tipo de tabu ou autoridade que não poderia ser discutido abertamente.
Lumian tomou um gole de vinho e pensou por alguns segundos antes de oferecer sua ajuda.
— Posso adivinhar onde o padre está. Você precisa que eu o leve até lá?
Leah não fez cerimônia. — Se não for muito problema, — disse ela.
Ryan concordou com a cabeça.
— Depois que você terminar sua bebida.
— Tudo bem. — Lumian ergueu o copo e terminou o álcool verde-claro.
Ele largou o copo e se levantou.
— Vamos.
Ryan expressou sua gratidão, — Merci beaucoup. — Ele gesticulou para que Valentine e Leah se levantassem e agradeceu a Lumian: — Muito obrigado.
Nota: Merci beaucoup, Muito obrigado.
O rosto de Lumian se iluminou com um sorriso. — Não há problema nenhum. Você ouviu minha história e eu desfrutei de uma bebida de cortesia. Isso nos torna amigos, não é?
— Claro. — Ryan assentiu.
O sorriso de Lumian se alargou, estendendo-se de orelha a orelha. Ele abriu os braços, convidando a outra parte para um abraço.
— Ah, é um prazer conhecê-los, meus repolhos, — exclamou com fervor.
Ryan, que estava prestes a ser envolvido em um abraço de urso, congelou.
— Repolhos?
Sua expressão era uma mistura de perplexidade e constrangimento.
Valentine e Leah espelharam sua expressão.
— É um termo carinhoso que usamos para nossos amigos, — explicou Lumian com sinceridade inocente. — Todos na região de Dariège sabem disso. É uma tradição há séculos, acredite, meus repolhos.
Leah não pôde deixar de olhar ao redor, produzindo sons tilintantes.
Pierre e os outros concordaram com a cabeça, garantindo aos recém-chegados que as palavras de Lumian eram verdadeiras. No entanto, os sorrisos em seus rostos sugeriam que estavam satisfeitos em ver estrangeiros lutando para compreender suas saudações afetuosas.
Lumian coçou o queixo pensativamente.
— Você não gostou?
— Então optarei por uma opção diferente. Também pode ser usado para amigos.
— Meus queridos coelhinhos, meus queridos pintinhos, meus adoráveis patos, ou talvez meus adoráveis cordeiros? Qual deles lhe agrada?
Mas a expressão de Ryan estava rígida como uma tábua, e a testa de Valentine franziu-se em confusão.
Leah soltou um suspiro, uma mistura de exasperação e diversão.
— Vamos ficar com o repolho, certo? Pelo menos parece normal.
Ufa. Ryan soltou um suspiro silencioso e gentilmente agarrou o cotovelo de Valentine. Ele deu um leve aceno de cabeça e comentou: — Todos são nossa preciosa família.
Sem esperar pela resposta de Lumian, ele girou o corpo e se dirigiu ao barman: — Quanto vai custar?
— Dois verl d’or, — respondeu o barman, olhando para os copos alinhados no balcão.
Ryan pagou a conta e Leah mudou a conversa para um assunto diferente.
— Lumian é um nome incomum.
— Pelo menos melhor do que nomes como Pierre e Guillaume, — rebateu Lumian com um sorriso. — Se você chamasse Pierre neste lugar, um terço das pessoas viraria a cabeça. Chame Guillaume e outro terço responderá. Quanto a este cavalheiro…
Ele apontou para o homem magro de meia-idade que tomava sua bebida grátis.
— Seu nome completo é Pierre Guillaume.
Leah deu um sorriso, evitando o assunto do repolho.
Ao saírem do bar, Lumian se virou e examinou os arredores.
— Qual é o problema? — Leah perguntou com curiosidade.
Lumian ponderou por um momento e respondeu pensativo: — Não foram apenas vocês três, estrangeiros, que vieram ao bar hoje. Outras pessoas chegaram mais cedo, mas não sei quando saíram.
— Como eles eram? — Ryan perguntou com uma expressão séria.
Lumian parou um momento para refletir.
— Uma mulher. Muito sofisticada. Você pode dizer que ela é da cidade com apenas um olhar. Não consigo descrever sua aparência. Por que não faço um esboço dela para você?
— Você sabe como desenhar? — Leah perguntou, ciente das idiossincrasias de Lumian.
Lumian riu.
— Não.
— Nesse caso, vamos primeiro localizar o padre — decidiu Ryan, encerrando a conversa.
Cordu era um lugar sem iluminação pública à noite, mas as estrelas cintilantes acima forneciam um brilho fraco que permitia aos quatro andar pela estrada. A luz amarelada que emanava das janelas de ambos os lados apenas aumentava o ambiente etéreo.
Ao se aproximarem da catedral do Eterno Sol Ardente, situada na praça da vila, a grandiosa estrutura parecia um tanto embaçada na escuridão, como se estivesse se fundindo com a noite.
— Já estivemos aqui antes. Não há ninguém aqui, — Valentine resmungou com uma carranca.
Lumian sorriu e disse: — Ninguém na porta da frente não significa que não há ninguém em outro lugar.
Ele então conduziu Ryan e os outros pela frente da catedral em direção ao cemitério, onde encontraram uma porta de madeira marrom escura.
Lumian não esperou que Ryan batesse. Em vez disso, estendeu a mão e mexeu no buraco da fechadura antes de abrir a porta lateral com um rangido.
— Isso não é muito legal, não é? — Ryan franziu a testa.
Leah concordou com a cabeça, seus sinos tilintando.
— Estamos aqui para visitar o padre, não para brigar com ele.
— Tudo bem, — Lumian concordou.
Ele fechou a porta de madeira e bateu de leve.
— Ei, tem alguém aí? Entrarei se você não responder, — ele murmurou em voz baixa que era quase inaudível durante a noite.
Não houve resposta de dentro da catedral.
Sem hesitar, Lumian abriu a porta e gesticulou para dentro.
— Entrem.
Ryan hesitou. Ele olhou para a escuridão atrás da porta e olhou para seus companheiros.
— OK. — Ele deu um passo à frente, lento, mas firme.
Leah e Valentine seguiram de perto.
Os quatro sinos prateados que adornavam as botas e o véu de Leah estavam estranhamente silenciosos.
O ambiente estava escuro e misterioso enquanto os quatro avançavam.
Do nada, Ryan parou e murmurou em voz baixa: — Que barulho é esse?
— Sim, eu também ouvi, — concordou Lumian.
Sem perder tempo, ele empurrou a porta com força e ela se abriu com um barulho alto, revelando o que havia além.
O espaço mal iluminado lembrava um confessionário. Um raio de luz das estrelas brilhou, revelando um homem nu no auge da sua juventude, deitado em cima de uma mulher de pele clara.
A cena surpreendeu a todos, inclusive o homem e a mulher.
De repente, o homem sentou-se e gritou para Ryan e sua equipe: — Sacrebleu! Vocês arruinaram os planos da igreja!
Nota: Sacrebleu seria algo como Caramba.
Em meio ao rugido reverberante, Lumian, que se aproximava silenciosamente por trás do grupo, acenou com a mão e falou rapidamente: — Ah, parece que achamos nosso padre. Au revoir, meus repolhos!
Nota: Au revoir, tchau.
Antes que alguém pudesse reagir, Lumian correu em direção à porta lateral, deixando suas palavras levadas pelo vento.
Enquanto a equipe ficava em estado de choque, Leah, Ryan e Valentine não conseguiam tirar de suas mentes as palavras do homem de meia-idade, Pierre Guillaume: — … você deveria ficar longe desse cara. Ele é o cara mais travesso da aldeia inteira.
Lumian passeava pela estrada rural, com as mãos enfiadas nos bolsos enquanto assobiava uma música sob as estrelas.
— Como esperado, o padre está tendo um caso com Madame Pualis.
— Mon dieu, esses estrangeiros exalam um ar de prestígio. O padre nunca sonharia em enfrentá-los. Ele deve pagar uma quantia exorbitante para manter seu namoro sórdido em segredo e preservar sua posição dentro da catedral.
Nota: Mon dieu, Meu Deus.
— Hmph, ele é o único culpado por desejar Aurore. Estou aguardando essa chance…
Enquanto Lumian murmurava para si mesmo, voltou para sua residência nos arredores da aldeia.
A estrutura que ele chamava de lar era um peculiar edifício semi-subterrâneo de dois andares. O piso térreo também funcionava como cozinha e sala. Um forno robusto e um fogão grande dominavam a sala.
— Aurore! Aurore! — Lumian gritou enquanto subia as escadas.
Sem resposta.
O piso superior estava dividido em três partes e uma lavandeira, todas as portas estavam abertas.
Lumian espiou cada cômodo, mas não conseguiu encontrar a irmã.
Ele refletiu por um momento, depois andou até o fim do corredor e subiu a escada que levava ao telhado.
O telhado era de um laranja intenso, pintado pelo céu crepuscular. No centro estava sentada uma pessoa, segurando os joelhos e olhando contemplativamente para as estrelas cintilantes.
Esta era uma mulher requintada, excepcionalmente. Seus longos e grossos cabelos eram de um tom dourado, seus olhos eram de um azul claro e seus traços faciais eram intrincados e refinados.
Seu olhar estava fixado no cosmos, seu semblante sereno, semelhante ao de uma estátua.
Lumian permaneceu em silêncio. Ele foi para o lado dela e sentou-se ao lado dela.
Levantou a cabeça, olhando para a floresta densa ao longe, absorvendo o sussurro do vento que soprava por entre as árvores.
Depois de um tempo, a mulher ergueu os braços e se espreguiçou, sem prestar atenção à sua aparência.
— Aurore, não entendo por que você vem aqui com tanta frequência. O que há de tão interessante nessa vista? — Lumian comentou.
— Chame-me de Grande Irmã! — Aurore repreendeu de brincadeira, batendo na cabeça de Lumian com o dedo.
Aurore suspirou e pensou consigo mesma: — Um filósofo disse uma vez que só existem duas coisas que valem a pena reverenciar neste mundo. Uma é a moralidade no coração e a outra é o cosmos acima da cabeça.
Lumian percebeu a expressão levemente melancólica da irmã e sorriu.
— Eu sei a resposta para esta pergunta. O Imperador Roselle disse isso!
— Pfft… — Aurore riu.
Ela respirou e ergueu suas lindas sobrancelhas douradas.
— Você estava bebendo de novo!
— Isso se chama socialização. — Lumian aproveitou para contar o que acabara de acontecer. — Conheci três estrangeiros…
Aurore não pôde deixar de rir.
— Tenho muito medo de que o padre tenha um ataque cardíaco.
Sua expressão então ficou séria. — Lumian, não provoque mais o padre. Será problemático se enviarem outro.
— Mas eu não suporto a cara dele… — Lumian reclamou antes que Aurore se levantasse.
Ela olhou para o irmão e sorriu.
— Tudo bem, é hora de dormir, meu irmão embriagado, — disse Aurore com um sorriso enquanto jogava fora um pouco de pó prateado.
Aurore voou do telhado como um pássaro e entrou pela janela do segundo andar, deixando Lumian para trás.
Lumian assistiu isso em silêncio e gritou ansiosamente: — E eu?
— Desça você mesmo! — Aurore respondeu impiedosamente.
Lumian franziu os lábios, seu sorriso desaparecendo aos poucos.
Ele observou as partículas prateadas de luz desaparecerem no céu noturno, suspirou suavemente e murmurou para si mesmo: — Eu me pergunto quando poderei possuir poderes tão extraordinários…
Circle of Inevitability - Capítulo Três: – Sonho
Lumian permaneceu no topo do telhado, relutante em descer ainda.
Seu rosto era uma imagem de estoicismo, sem trair nenhuma emoção. Foi-se o jovem travesso que frequentava o bar, sempre pronto com um sorriso e uma brincadeira. Pelo contrário, estava uma pessoa composta e decidida, irreconhecível para aqueles que o conheciam antes.
Desde que descobriu por acaso os poderes mágicos de Aurore, Lumian estava obcecado em obtê-los. Mas Aurore sempre o advertiu contra isso, citando o imenso perigo e a agonia que acompanhava o uso de tais habilidades. Ela se recusou a divulgar o segredo, mesmo sabendo como concedê-lo a meros mortais.
Lumian não podia forçá-la a revelar o método, então recorreu a implorar e persuadi-la a cada passo.
Após alguns segundos de contemplação, Lumian levantou-se e desceu até a beira do telhado. Ele subiu de volta ao segundo andar usando a escada de madeira.
Caminhou até o quarto de Aurore, apenas para encontrar a porta de madeira marrom entreaberta antes de espiar lá dentro.
Aurore estava sentada à sua mesa, rabiscando com uma caneta-tinteiro champanhe, vestida com um vestido azul-celeste.
“O que ela está escrevendo tão tarde da noite? Está relacionado com bruxaria?” Lumian colocou a mão na porta e brincou: — Está escrevendo no seu diário, não é?
— Quem escreve em um diário, honestamente? — Aurore respondeu sem tirar os olhos do que estava escrevendo.
Lumian não ficou satisfeito com a resposta dela.
— Mas o Imperador Roselle não manteve vários volumes de diários?
Roselle, o último imperador da República Intis, onde os irmãos viviam atualmente, derrubou a dinastia Sauron e assumiu o manto de César, declarando-se assim imperador.
O homem fez inúmeros avanços nos campos da ciência e da engenharia, tendo sido creditado como o inventor da máquina a vapor. Sem mencionar que ele traçou a rota marítima para o Continente Sul e desencadeou uma era de colonização. Ele era a personificação de seu tempo, um símbolo de uma época passada, há mais de um século.
No entanto, em seus anos finais, ele foi traído e assassinado no Palácio do Bordo Branco de Trier.
Após a sua morte, as páginas do seu diário foram divulgadas por todo o mundo, mas foram escritas numa língua que ninguém conseguia decifrar, como se as palavras não existissem neste mundo.
— É por isso que Roselle não é um homem honesto, — zombou Aurore, de costas para Lumian.
— Então, o que você está rabiscando aí? — Lumian perguntou.
Esse era o cerne da questão.
Aurore respondeu encolhendo os ombros, sua voz cheia de indiferença, — Uma carta.
— A quem? — Lumian não pôde evitar fazer uma careta.
Aurore fez uma pausa, largando sua requintada caneta-tinteiro dourada de champanhe, com padrões complexos, para revisar suas palavras e frases.
— Um amigo por correspondência.
— O quê? — Lumian franziu a testa, completamente perplexo.
Que raio era aquilo?
Aurore riu, passando os dedos pelos brilhantes cabelos dourados enquanto começava a esclarecer seu irmão.
— É por isso que continuo dizendo para você ler mais e estudar mais. Pare de desperdiçar seus dias bebendo e farreando!
— Olhe para você. O que o diferencia de um analfabeto?
— Os amigos por correspondência são amigos que se conhecem por meio de jornais, revistas e outras publicações. Eles nunca se viram e dependem apenas de cartas para manter contato.
— Qual é o sentido de ter um amigo assim? — Lumian perguntou, bastante preocupado com o assunto.
Ao retirar a mão da porta, ele coçou o queixo, imerso em pensamentos.
Aurore nunca teve um namorado antes, então ele não podia permitir que ela fosse enganada por alguém que ela nunca conheceu antes.
— Sentido? — Aurore pensou seriamente sobre isso. — Em primeiro lugar, valor emocional. Oui, eu sei que você não entende o conceito. Os humanos precisam se conectar uns com os outros, mas algumas coisas e emoções não podem ser compartilhadas com os aldeões, nem com você. Preciso de uma saída mais privada para liberar meus pensamentos. Esses amigos por correspondência, que não conheci pessoalmente, são perfeitos para isso. Em segundo lugar, não subestime meus amigos por correspondência. Alguns deles possuem grande poder e alguns possuem amplo conhecimento. Por exemplo, um amigo por correspondência talentoso me deu esta lâmpada a bateria. Lâmpadas de querosene e velas são muito prejudiciais aos olhos e não são ideais para escrever à noite…
Nota: Oui significa sim.
Sem esperar que Lumian fizesse outra pergunta, Aurore acenou com a mão atrás dela.
— Descanse um pouco, meu irmão embriagado! Bonne nuit!
Nota: Bonne nuit significa boa noite.
— Tudo bem, boa noite. — Lumian respondeu, tentando esconder sua frustração.
Aurore instruiu: — Não se esqueça de fechar a porta. Está frio aqui com todas as janelas e a porta aberta.
Lumian fechou lentamente a porta de madeira marrom e foi para seu quarto, onde tirou os sapatos antes de se sentar na cama.
Na penumbra da noite, Lumian avistou a mesa de madeira ao lado da janela, a cadeira inclinada, a pequena estante encostada na parede e o guarda-roupa do outro lado.
Ele ficou imóvel, perdido em pensamentos.
Ele sabia que Aurore era uma mulher que guardava seus segredos para si mesma e havia coisas que não havia revelado a ele. Lumian não ficou surpreso, mas temeu que seus segredos pudessem colocá-la em perigo.
E quando a realidade chegasse, suas opções eram limitadas.
Ele era apenas uma pessoa comum, com um corpo robusto e uma inteligência afiada.
Os pensamentos surgiram como ondas quebrando na praia, e com a mesma rapidez recuaram. Lumian respirou fundo e foi até o banheiro para se refrescar.
Depois, tirou o casaco marrom e desabou na cama fria.
O ar de abril nas montanhas ainda estava frio.
No meio de seu estado de sonolência, Lumian percebeu uma névoa escura, envolvendo seu entorno e apagando tudo que estava à vista.
Ele caminhou atordoado pela névoa, mas independentemente da direção que tomasse ou da distância que percorresse, a névoa sempre o levava de volta ao mesmo lugar: seu quarto.
O quarto era decorado com uma cama branca, uma mesa e cadeira de madeira posicionadas em frente à janela, estantes de livros, guarda-roupas e assim por diante.
Os olhos de Lumian se abriram assustados, o sol da manhã lançava uma luz através das finas cortinas azuis.
Ele se sentou, olhando fixamente para a sala, sentindo-se como se ainda estivesse preso em um sonho.
O mesmo sonho que ele vinha tendo há dias: a névoa cinza que se recusava a dissipar-se.
Ele levou a mão às têmporas e murmurou para si mesmo com uma voz profunda: – Está ficando mais frequente. Tenho o mesmo sonho quase todos os dias…
O comportamento calmo de Lumian desmentia o fato de que esse sonho não trouxe nenhum efeito negativo, mas certamente também não produzia nenhum resultado positivo.
— Rezo para que escondido nisso haja algo proveitoso, — murmurou Lumian, enquanto se levantava da cama.
Lumian abriu a porta do corredor e imediatamente ouviu um som vindo do quarto de Aurore.
“Que coincidência…” Lumian sorriu.
Mas então, um pensamento repentino o atingiu, fazendo-o dar um passo para trás e ficar na beira da porta.
Quando a porta do quarto de Aurore se abriu, Lumian rapidamente levantou a mão direita e começou a massagear as têmporas com uma expressão levemente dolorida no rosto.
— O que está errado? — Aurore percebeu seu desconforto.
“Sucesso!” Lumian aplaudiu interiormente enquanto tentava ao máximo se acalmar.
— Tive aquele sonho de novo, — respondeu ele com voz profunda.
As mechas douradas de cabelo de Aurore caíram em cascata por seus ombros enquanto ela franzia as sobrancelhas com preocupação.
— O método anterior não funcionou… — ela murmurou para si mesma antes de sugerir,
— Talvez… eu devesse encontrar um Hipnotista para você, um Hipnotista de verdade, e ver o que causou isso.
— O tipo com poderes mágicos? — Lumian questionou deliberadamente.
Aurore assentiu levemente em resposta.
— Um de seus amigos por correspondência? — Lumian não pôde deixar de perguntar.
— Por que você se preocupa com isso? Pense em como resolver seu próprio problema! — Aurore respondeu sem hesitação.
“Não é isso que está em minha mente?” Lumian murmurou interiormente.
Ele aproveitou a oportunidade para dizer: — Aurore, se eu me tornar um Bruxo e ganhar poderes extraordinários, serei capaz de desvendar o segredo do sonho e acabar com ele completamente.
— Nem pense nisso! — Aurore respondeu sem hesitação.
Sua expressão se suavizou enquanto ela continuava: — Lumian, não vou mentir para você. Este caminho que estamos tomando é perigoso, doloroso e totalmente traiçoeiro. Se eu tivesse outra escolha e se o mundo não estivesse fora de controle, eu ficaria contente em ser uma velha escritora normal e viver uma vida pacífica.
Lumian não hesitou em intervir: — Então deixe-me carregar o fardo do perigo e da dor. Eu protegerei você enquanto você faz o que ama.
Essas palavras vinham se repetindo em sua cabeça há algum tempo.
Aurore ficou em silêncio por alguns segundos antes de um sorriso se espalhar por seu rosto.
— Você está discriminando as mulheres?
Antes que Lumian pudesse dizer uma palavra, ela acrescentou com um tom sério: — É tarde demais para voltar atrás agora. Não há como voltar ao que tínhamos antes.
— Tudo bem, entendi. Vou me banhar. Você vai estudar muito em casa hoje e se preparar para o vestibular em junho!
— Você mesmo disse, o mundo está ficando mais perigoso. Qual é o sentido de fazer exames? — Lumian murmurou.
Ele acreditava que a chave para o sucesso era a força, e não algum diploma.
Aurore apenas sorriu e disse: — Conhecimento é poder, meu irmão sem instrução.
Lumian não teve resposta, então apenas observou Aurore entrar no banheiro.
À tarde, na movimentada praça de Cordu,
Reimund Greg avistou Lumian Lee agachado sob um olmo. Seus pensamentos estavam envoltos em mistério.
Nota: Os ulmeiros, ulmos, olmeiros, olmos, lamigueiros ou lamegueiros são árvores de várias espécies do gênero Ulmus, família Ulmaceae. São grandes árvores nativas na Europa, alcançando os 30 metros de altura. Possuem folhas alternas, denteadas, plissadas, com a base inequilátera.
— Você não deveria ficar escondido em casa com o nariz enterrado nesses livros? — Reimund se aproximou dele, sua voz cheia de inveja.
Reimund era o confidente de Lumian, medindo moderadamente 1,7 metros, cabelos e olhos castanhos. Ele era um sujeito de aparência comum e pele levemente corada.
Lumian olhou para ele e deu um sorriso encantador.
— Aurore não te contou? Até o carrasco merece uma folga! Fiquei preso por tanto tempo que precisava de uma pausa.
Durante toda a manhã ele ruminou sobre a possibilidade de adquirir poderes extraordinários sem a ajuda de Aurore.
Isso exigiu que ele buscasse pistas e tomasse a iniciativa de investigar.
Eventualmente, ele sentiu que os rumores de poderes mágicos circulando por toda a vila continham alguma verdade e pistas, então esperou propositalmente por Reimund aqui.
— Se eu estivesse no seu lugar, não descansaria por mais de quinze minutos, — Reimund falou lentamente, apoiando-se casualmente no olmo. — Não temos uma irmã que leia o suficiente para nos ensinar. Pretendo aprender a pastorear ovelhas no próximo ano.
Lumian não prestou atenção aos comentários de Reimund e falou pensativamente.
— Pode me recontar a história do Bruxo?
Reimund não conseguiu entender bem as intenções de Lumian, franzindo a testa em confusão.
— De novo?
— No passado, havia um Bruxo em nossa aldeia, mas ele morreu mais tarde. No dia de seu enterro, uma coruja veio de fora e pousou em cima de sua cama. Ela só partiu depois que o caixão foi carregado.
— Então, o caixão ficou insuportavelmente pesado. Foram necessários nove touros para puxá-lo.
Lumian pressionou ainda mais: — Há quanto tempo foi isso?
A expressão de Reimund ficou cada vez mais perplexa.
— Como posso saber? Ouvi isso do meu pai.
Circle of Inevitability - Capítulo Quatro: – Pastor.
Lumian levantou-se rapidamente, os olhos brilhando de determinação. — Então vamos até o seu pai.
Ele sempre foi um homem de ação e sabia que a investigação da lenda da aldeia não poderia esperar. Se demorasse, sua irmã Aurore certamente ficaria sabendo disso e nunca permitiria que ele prosseguisse.
Aos olhos de Aurore, mergulhar no reino dos poderes extraordinários era o mesmo que brincar com fogo.
“Como posso não saber que há perigo? Aurore não mentiria para mim sobre isso. Mas mesmo que o mundo esteja em chamas, tenho que continuar caminhando. Não posso deixar Aurore enfrentar isso sozinha…” Quando se levantou, esse pensamento passou pela mente de Lumian.
Cada vez que Aurore mencionava que o mundo estava se tornando mais perigoso, a seriedade e a preocupação em seu rosto não poderiam ser mais genuínas!
Reimund Greg olhou para Lumian com confusão estampada em seu rosto.
— Por que você vai até ele?
Lumian olhou para ele com um olhar fulminante. — Perguntarei a ele há quanto tempo a lenda do Bruxo aconteceu.
“Por que esse cara está se esforçando tanto para compreender um assunto tão simples? Talvez eu precise encontrar algum tempo para testar sua inteligência.”
Reimund ainda parecia perplexo enquanto olhava para Lumian.
— Por que você precisa saber esses detalhes?
“Uh… Devo me preocupar em tentar explicar isso para esse sujeito sem noção? Ou devo simplesmente inventar uma desculpa plausível?” Ele pesou suas opções.
A mente de Lumian disparou enquanto ele considerava seu próximo movimento. Ele sabia que não poderia manter suas investigações em segredo dos amigos, mas também sabia que buscar a verdade sobre a lenda era uma atitude arriscada. No entanto, ele rapidamente teve uma ideia.
Ele abriu um sorriso que normalmente reservava para momentos em que estava prestes a enganar alguém.
— … — Reimund deu dois passos para trás, sentindo que algo estava errado. — Fale!
Lumian ajeitou a camisa escura e a jaqueta de linho antes de sorrir.
— Acredito que a lenda do Bruxo merece nossa atenção.
— O que há de tão importante nisso? — Reimund perguntou depois de pensar um pouco.
— De fato houve um Bruxo em nossa aldeia de Cordu no passado, — disse Lumian com uma expressão séria. — Pense nisso, meu amigo. Quando minto, não forneço detalhes específicos como hora, local e histórico que alguém possa verificar facilmente. No entanto, esta lenda menciona um Bruxo que viveu em Cordu, e se fosse falsa, seria muito fácil para alguém expô-la como tal.
— Mas isso foi há muito tempo, — rebateu Reimund.
— Também estou me referindo às pessoas que estavam por perto quando a lenda começou a circular, — explicou Lumian, com um sorriso cada vez maior. — Elas poderiam facilmente ter confirmado se um Bruxo vivia ou não em Cordu naquela época. E como a lenda foi transmitida de geração em geração, é altamente provável que seja baseada em um evento real.
Reimund não se convenceu.
— Mas quando você inventa histórias, muitas vezes usa frases como ‘mais de cem anos atrás’, ‘séculos atrás’, ‘muito, muito tempo atrás’, para tornar impossível para qualquer pessoa verificar.
— É exatamente por isso que preciso confirmar isso com seu pai, — respondeu Lumian, com um olhar malicioso que dizia: — Você vê aonde quero chegar com isso, não é?
— Isso é verdade… — Reimund assentiu lentamente, aceitando a explicação de Lumian, mas não conseguia afastar a sensação de que algo não estava certo.
Ao saírem da praça e se aprofundarem na aldeia, Reimund teve uma súbita epifania.
— Mon Dieu, por que você quer confirmar se tal lenda é verdadeira?
Nota: Mon Dieu significa Meu Deus.
— Bruxo, mon ami, é isso que estamos procurando! Se pudermos confirmar a casa onde ele morava e o local onde foi enterrado, poderemos descobrir seu segredo e ganhar poderes mágicos que vão além dos meros mortais, — respondeu Lumian, suas palavras verdadeiras gotejavam engano.
Nota: mon ami significa meu amigo.
A expressão de Reimund tornou-se cética: — Não me conte mentiras.
— Mon ami, a maioria dessas histórias é criada para assustar crianças. Como podem ser verdade?
— E além disso, qualquer um que busque o poder de um Bruxo acabará na Inquisição!
A República Intis ficava no Continente Norte, onde as divindades ortodoxas eram o Eterno Sol Ardente e o Deus do Vapor e da Maquinaria. Estas duas igrejas dividiram a fé de quase todas as pessoas, e não permitiram que a Igreja da Deusa da Noite Eterna, a Igreja do Senhor das Tempestades do Reino de Loen, a Igreja da Mãe Terra do Reino de Feynapotter, a Igreja do Deus do Conhecimento e da Sabedoria de Lenburg, e a Igreja do Deus do Combate do Império Feysac entrassem e pregassem.
A Inquisição da Igreja do Eterno Sol Ardente era temida por todos. Inúmeros hereges foram presos e submetidos a torturas inimagináveis.
Lumian riu.
— Por que você está preocupado agora, meu amigo? Você mesmo disse, a maioria dessas lendas são falsas. As chances de encontrar os restos mortais de um Bruxo são quase nulas.
— Além disso, mesmo se tropeçarmos nos restos mortais de um Bruxo, não precisamos assumir seu poder proibido. Podemos entregá-lo à Igreja e obter uma bela recompensa cheia de tesouros.
A Igreja da qual Lumian falou era a Igreja do Eterno Sol Ardente. A Igreja do Deus do Vapor e da Maquinaria não era encontrada em Cordu, mas geralmente ficava localizada em grandes cidades e locais com fábricas.
Vendo a tentação crescendo nos olhos de Reimund, Lumian não pôde deixar de estalar a língua de satisfação.
— Você realmente quer ser pastor, meu amigo?
O ‘pastor’ ele não estava falando sobre a ideia romantizada de um pastor religioso que os moradores da cidade muitas vezes tinham. Não, isso era uma profissão. Todas as manhãs, eles teriam que conduzir um rebanho de ovelhas para pastar e cuidar delas.
Cordu estava localizado em Dariège, província de Riston. Ser pastor era uma profissão aqui, uma profissão difícil e solitária.
Eles trabalhavam para proprietários de ovelhas, pastoreando dezenas, até centenas de ovelhas entre as montanhas e as planícies.
Isso era conhecido como pastoreio. Todo outono, as montanhas ao redor de Cordu murchavam e os pastores conduziam as ovelhas para fora da passagem nas montanhas para as planícies mais quentes e distantes, às vezes cruzando as fronteiras para Feynapotter, Lenburg e outros países. No início de Maio, traziam as ovelhas de volta a várias aldeias para tosquiá-las e desmamar os cordeiros. Em junho, subiriam as montanhas e chegariam às cordilheiras altas. Eles moravam em barracos e faziam queijo enquanto pastavam as ovelhas até o tempo esfriar.
Os pastores passavam a vida inteira em movimento, viajando de um lugar para outro. Eles só tinham uma pequena parcela de tempo para voltar à aldeia, o que tornava quase impossível constituir família. A maioria deles eram solteiros, e as poucas viúvas que não tinham escolha senão pastorear ovelhas para viver eram muito procuradas pelos pastores.
Reimund ficou em silêncio.
Depois de um longo tempo, ele disse hesitantemente: — Vou ouvir você. Parece divertido e eu poderia usar alguma coisa para passar o tempo.
No curso normal dos acontecimentos, uma vez que a família decidisse qual criança se tornaria pastor, eles a enviariam para um determinado local de pastor para ajudar entre as idades de quinze e dezoito anos. Lá, ele aprenderia os fundamentos do pastoreio. Três anos depois, o jovem se tornaria oficialmente pastor e procuraria emprego em outro lugar.
Reimund, de dezessete anos, porém, encontrou vários motivos para adiar esse assunto por mais de dois anos. Se as suas circunstâncias não se alterassem, ele teria que começar a aprender a pastorear no próximo ano.
— Vamos, — disse Lumian, dando um tapinha no ombro de Reimund. — Seu pai está no campo ou em casa?
— Recentemente, não tem havido muito trabalho. A Quaresma está se aproximando rapidamente. Ele está em casa ou no bar. — Reimund soltou uma voz de inveja. — Você não sabe nada sobre isso? Você definitivamente não é um fazendeiro. Você tem uma irmã sortuda!
Lumian colocou as mãos nos bolsos e seguiu em frente, ignorando as lamentações de Reimund.
Ao se aproximarem do bar decadente da aldeia, uma pessoa emergiu da rua lateral.
Este indivíduo estava vestido com um longo casaco marrom escuro com capuz. Uma corda estava amarrada em sua cintura e ele usava um par de sapatos novos e flexíveis de couro preto.
— Pierre? Pierre dos Berrys? — Reimund gritou de surpresa.
Lumian parou e se virou para olhar.
— Sou eu, — respondeu Pierre Berry com um largo sorriso e um aceno de mão.
Ele era um homem magro, com olhos fundos e cabelos oleosos e encaracolados. Sua barba por fazer sugeria que já fazia algum tempo desde a última vez que ele se barbeou.
— Por que você está de volta? — Reimund perguntou confuso.
Pierre Berry era pastor e era apenas início de abril. Ele deveria estar cuidando de suas ovelhas nos campos além da passagem na montanha. Como diabos ele estava na aldeia?
Ele tinha apenas começado sua jornada e, mesmo que tivesse ido para Lenburg ou para o norte de Feynapotter, levaria um mês para retornar às montanhas de Dariège.
Com seus olhos azuis calorosos e sorridentes, Pierre exclamou alegremente: — Não é quase a Quaresma? Faz anos que não a celebro. Não posso perdê-la este ano!
— Não se preocupe. Tenho um companheiro para me ajudar a cuidar das ovelhas. Essa é a beleza de ser pastor. Sem um supervisor, desde que eu encontre alguém que me ajude, posso ir aonde quiser. Eu sou livre como um pássaro.
A Quaresma era um festival amplamente celebrado em toda Intis. As pessoas acolheram a chegada da primavera de diferentes maneiras e rezaram por uma colheita frutífera para o ano.
Embora não tivesse nada a ver com a Igreja do Eterno Sol Ardente ou com a Igreja do Deus do Vapor e da Maquinaria, já havia se tornado folclore e não envolvia a adoração de divindades pagãs. Portanto, obteve a aprovação tácita das facções ortodoxas.
— Você quer ver quem será escolhido como Elfa da Primavera este ano, não é? — Lumian brincou, abrindo um sorriso.
Em Cordu, o povo escolhia uma linda garota para ser a Elfa da Primavera na Quaresma. Tudo fazia parte da celebração.
Pierre riu junto.
— Espero que seja sua irmã Aurore, mas ela definitivamente não vai concordar e também não tem a idade certa.
— Tudo bem, — disse ele, apontando para o bar a poucos passos de distância. — Vou para a catedral para rezar. As bebidas são por minha conta mais tarde.
Reimund respondeu distraidamente: — Não precisa. Você não tem muito dinheiro.
— Haha, como o próprio bom Senhor disse: ‘Mesmo que haja apenas uma moeda, temos que compartilhá-la com nossos irmãos…’ — Ele recitou um ditado que era bem conhecido entre os pastores da região de Dariège.
Lumian sorriu para Reimund, dizendo: — Pierre está rico. Ele definitivamente está nos convidando para uma bebida!
Ele apontou para os novos sapatos de couro de Pierre Berry.
Pierre Berry ficou emocionado.
— Meu novo chefe não é tão ruim. Ele me deu algumas ovelhas e um pouco de lã, queijo e couro.
Os pastores eram compensados com comida, uma pequena quantia em dinheiro e animais, queijo, lã e couro. O valor que recebiam dependia do acordo que haviam assinado com o empregador.
Para os pastores que tinham que percorrer longas distâncias, ter um bom e adequado par de sapatos de couro era o desejo mais premente e prático.
Enquanto Lumian observava Pierre Berry caminhando em direção à praça da cidade, seu olhar tornou-se gradualmente solene e cheio de suspeita.
Ele murmurou silenciosamente para si mesmo: “Vai viajar por uma semana ou duas ou talvez até um mês só para assistir à Quaresma?”
Lumian parou por um momento, seus olhos examinaram a área antes de se virar e caminhar em direção ao bar local com Reimund.
O bar era um estabelecimento indefinido, sem nenhum apelido sofisticado. Os habitantes da cidade referiam-se carinhosamente a ele como Antigo Bar.
Ao entrar, os olhos de Lumian percorreram a sala com sua maneira habitual.
De repente, seu olhar parou.
Ali, diante dele, estava a estrangeira que partira tão apressadamente na noite anterior.
Ela estava sozinha, não na companhia de Ryan, Leah e Valentine.
Seu vestido era longo e esvoaçante de cor laranja, e seus cabelos eram de um castanho rico, desgrenhados em cachos suaves. Seus penetrantes olhos azul-celeste estavam fixos na bebida escarlate que enfeitava sua mão delicada.
Linda e elegante, ela parecia deslocada no bar decadente e mal iluminado.
Circle of Inevitability - Capítulo Cinco: – Carta.
“Kirsch. Como esperado de alguém de uma cidade grande…” O olhar de Lumian finalmente pousou no copo na mão da mulher.
A bebida destilada à base de açúcar e cerejas fermentadas tinha cor e textura que agradavam às mulheres. Claro, poderiam substituir as cerejas por outras frutas, mas isso alteraria apenas ligeiramente o sabor.
O Antigo Bar de Cordu tinha um estoque limitado de vinhos de alta qualidade, incluindo Kirsch, pelo qual Madame Pualis se apaixonou durante sua visita à capital da província, Bigorre.
Madame Pualis era esposa de Béost, administrador local e juiz territorial. Seus nobres ancestrais perderam o título durante o reinado do Imperador Roselle.
Lumian sabia que ela também era uma das amantes do padre Guillaume Bénet, mas poucas pessoas na aldeia sabiam disso.
Lumian desviou o olhar da mulher e caminhou em direção ao balcão do bar.
Um homem de cerca de quarenta anos, vestindo camisa de linho e calças da mesma cor, estava sentado ali. Seu cabelo castanho não era mais exuberante e seu rosto estava enrugado por anos de trabalho duro.
Ele não era outro senão Pierre Greg, pai de Reimund.
Outro Pierre.
Pelo menos um terço das pessoas no bar atenderia ao nome de Pierre, Lumian havia brincado antes na frente de Leah, Ryan e os outros.
Na aldeia, quando as pessoas falavam de Pierre ou Guillaume, tinham que especificar a que família se referiam.
Muitas famílias tinham pais e filhos com os mesmos nomes, tornando impossível diferenciá-los sem adicionar “père”, “aîné” ou “júnior” aos seus nomes.
Nota: père significa pai e aîné algo como ‘avô’.
Reimund caminhou até o lado do pai e perguntou: — Papai, por que você não vai até a praça conversar com os outros?
Os homens da aldeia sempre se reuniam sob o antigo olmo ou na casa de alguém, onde passavam o dia jogando dados, cartas, xadrez e trocando todo tipo de boatos — afinal, a taverna custava dinheiro.
Pierre Greg, com uma taça de vinho tinto rico na mão, virou-se para o segundo filho e disse: — Iremos mais tarde. Não deve haver muita gente na praça agora.
“Isso mesmo. Para onde foram todos os homens da aldeia?” Lumian ficou imediatamente perplexo.
Ele havia notado a ausência dos aldeões na praça.
— Monsieur, quero lhe perguntar uma coisa, — disse Lumian sem rodeios.
Nota: Monsieur significa Senhor.
Pierre Greg imediatamente ficou alerta.
— Uma nova pegadinha?
“A história de “A Criança Criada pelo Lobo” realmente tem base na realidade…” Lumian virou a cabeça, gesticulando para Reimund falar.
Reimund hesitou por um momento, organizando seus pensamentos.
— Papai, há quanto tempo aconteceu a lenda do Bruxo que você me contou? Aquela em que foram necessários nove touros para puxar o caixão.
Pierre Greg engoliu um gole de vinho, com a testa franzida em perplexidade.
— Por que você está perguntando isso?
— Sabe, seu pépé me contou isso quando eu era apenas um garotinho, — respondeu Reimund.
Nota: pépé significa avô.
A província de Riston, onde Cordu estava localizada, e as províncias vizinhas de Aulay e Suhit estavam localizadas no sul da República Intis. Eram produtores de uvas famosos, e o vinho aqui, principalmente os de qualidade inferior, era muito barato. Em alguns anos, as pessoas podiam até beber vinho como água.
Reimund ficou desapontado porque já fazia muito tempo que seu avô havia falecido.
De repente, Pierre Greg entrou na conversa: — Seu pépé afirmou que viu isso com seus próprios olhos quando era apenas um jovem. Isso o assustou tanto que ele ficou com um medo mortal de corujas. Ele estava convencido de que suas garras malignas poderiam arrebatar sua alma.
Os olhos de Lumian e Reimund brilharam de excitação, quase em uníssono.
Merda, havia pistas reais!
A lenda do Bruxo — foi algo que alguém realmente experimentou?
— O Pépé mencionou alguma coisa sobre onde o Bruxo morava ou onde ele foi enterrado? — Reimund perguntou ansiosamente.
Pierre Greg encolheu os ombros. — Quem se importa?
“Ninguém que se deixe intimidar,” Reimund persistiu, determinado a colher qualquer fragmento de informação. Antes que pudesse falar, Lumian interveio com um toque suave em seu ombro enquanto falava em voz alta: — O rio nos espera.
Reimund estava prestes a sair com Lumian quando Pierre Greg de repente se lembrou de algo.
— Espere, Reimund. Em breve você será um Observador Verde, não é? Há algo que você precisa estar ciente.
Os Observadores Verde tinham a responsabilidade crucial de patrulhar as pastagens das terras altas ao redor da aldeia e dos campos próximos para evitar que qualquer pastoreio ilegal durante o período proibido ou que o gado destruísse as mudas.
Lumian não prestou muita atenção à conversa e dirigiu-se ao banheiro do bar.
Ao sair do banheiro, fez um desvio até a estrangeira que estava bebendo Kirsch. Era impossível discernir sua idade.
Embora não tivesse intenção de puxar conversa, ele a observou detalhadamente. Poderia ser útil no futuro, assim como ele usou Ryan, Leah e Valentine para se infiltrar na cena escandalosa do padre.
Depois de alguns olhares sutis, Lumian estava pronto para se dirigir à entrada do bar para esperar por Reimund quando a lânguida mulher de vestido laranja ergueu os olhos.
Antes que Lumian pudesse desviar o olhar, seus olhos encontraram os dela.
Lumian se sentiu um pouco estranho porque sua pele grossa não conseguia protegê-lo do encontro inesperado.
Muitos pensamentos surgiram imediatamente em sua mente.
“Talvez eu devesse seguir a sugestão do padre e dos administradores da Igreja e elogiar sua beleza? Ou talvez eu devesse mudar de assunto e dar em cima dela? Alternativamente, devo mostrar minha inexperiência e me virar rapidamente para sair?”
Enquanto Lumian se decidia, a mulher interrompeu seus pensamentos e disse com um sorriso: — Está tendo sonhos, não é?
Lumian foi atingido por um raio. Seus pensamentos ficaram entorpecidos e sua mente congelou.
Depois de um ou dois momentos, ele conseguiu forçar um sorriso e perguntou: — Sonhar não é incomum, não é?
A mulher tocou sua bochecha com uma das mãos e avaliou Lumian. Ela riu e disse: — Perdido em um sonho com névoa, talvez?
“Como ela poderia saber?” As pupilas de Lumian dilataram-se instantaneamente e sua expressão revelou uma pitada de medo.
Apesar de ter vivido muitas coisas, ele ainda era jovem e, por um momento, não conseguiu controlar suas emoções.
“Fique calmo, Lumian. Fique calmo…” Ele repetiu para si mesmo, tentando relaxar os músculos do rosto, antes de perguntar: – Você ouviu a história que contei àqueles três estrangeiros ontem à noite?
A mulher não respondeu. Em vez disso, tirou uma pilha de cartas de sua bolsa laranja, que estava na cadeira ao lado dela.
Ela lançou seu olhar para Lumian mais uma vez e abriu um sorriso radiante.
— Escolha uma carta. Talvez ela possa ajudá-lo a desvendar os segredos ocultos desse sonho.
“O que…” Lumian foi pego de surpresa, sua guarda instantaneamente levantada.
Ele estava ao mesmo tempo seduzido e cauteloso.
Olhou para o baralho que ela lhe apresentou e franziu as sobrancelhas.
— Tarô?
O baralho lembrava as cartas de tarô criadas pelo Imperador Roselle para adivinhação.
A mulher olhou para baixo timidamente e ofereceu um sorriso autodepreciativo.
— Minhas desculpas, devo ter pegado o errado.
Ela rapidamente devolveu as 22 cartas de tarô à sua bolsa de tamanho médio e tirou um baralho diferente.
— Isso também é tarô, mas é dos Arcanos Menores. Você não tem o privilégio de sacar do baralho dos Arcanos Maiores e eu não tenho autoridade para permitir que você…
Os Arcanos Menores consistiam em 56 cartas divididas em quatro naipes, cada um representando cálices, varinhas, espadas e pentagramas.
“Do que ela está falando…” Lumian ficou perplexo com suas palavras.
Essa mulher era incrivelmente bela e sofisticada, mas havia um ar de excentricidade nela que sugeria que ela não era totalmente sã.
— Escolha uma, — ela insistiu, agitando as cartas dos Arcanos Menores em sua mão. — É de graça, então não há custo para tentar. Pode ser a solução para a situação dos seus sonhos.
Lumian riu.
— Minha irmã disse uma vez que coisas grátis geralmente custam caro.
— Isso pode ser verdade, — disse a mulher depois de pensar um pouco.
Ela soltou o baralho dos Arcanos Menores com um toque delicado, tomando cuidado para não derrubar o copo de Kirsch que estava ao lado dela.
— Mas enquanto você não pagar, não importa o que aconteça, como posso eu, uma estrangeira, esperar que você pague em Cordu?
“É isso mesmo… talvez valha a pena tentar. Não foi fácil para mim ter uma pista sobre esse sonho. Eu tenho que tentar, mas e a maldição do Bruxo? Talvez eu devesse pedir a ajuda de Aurore?” A mente de Lumian estava repleta de pensamentos conflitantes e ele não conseguia decidir o que fazer.
A mulher não pareceu se importar com sua hesitação.
Depois do que pareceu uma eternidade, Lumian finalmente se decidiu. Lentamente, ele se inclinou para frente e estendeu a mão direita. Cuidadosamente, ele embaralhou a pilha de cartas de Arcanos Menores e extraiu uma do meio.
— Sete de Paus. — Os olhos lânguidos da mulher desviaram-se para a carta.
A imagem retratava um homem em trajes verdejantes, parado no topo de uma montanha com uma expressão determinada no rosto. Em sua mão, ele segurava uma varinha, preparada para a batalha contra as seis varinhas que representavam seus inimigos que atacavam do sopé da montanha.
— O que isto significa? — Lumian perguntou.
Os lábios da mulher se curvaram em um sorriso.
— Vou interpretar para você. Simboliza crise, desafio, confronto, coragem, etc.
— No entanto, o que realmente importa é que esta carta agora pertence a você. Quando chegar a hora, você descobrirá seu verdadeiro significado.
— Você está dando para mim? — A confusão de Lumian crescia a cada momento que passava.
Esta carta poderia realmente ser amaldiçoada?
A mulher ignorou sua pergunta e começou a guardar as cartas restantes. Ela pegou o copo e terminou o Kirsch restante de um só gole.
Com passos graciosos, caminhou em direção à escada ao lado do Antigo Bar e subiu ao segundo andar.
Era óbvio que ela se hospedava lá.
Lumian sentiu vontade de segui-la, mas algo o impediu. Seus pensamentos estavam desordenados.
“Esta é realmente uma carta comum?”
“Ela me deu. Isso significa que nunca mais poderá usar aquele baralho?”
“Aurore pode ser capaz de explicar isso…”
Neste momento, Reimund se aproximou de Lumian.
— Qual é o problema, meu amigo?
— Nada demais. Aquela estrangeira era muito bonita, não é? — Lumian disse condescendentemente.
— Acho que sua irmã, Aurore, é muito mais bonita. — Reimund então baixou a voz. — Lumian, meu pépé sumiu há muito tempo. O que devemos fazer a seguir?
Lumian, que estava com pressa para sair, ponderou por um momento antes de responder:
— Em primeiro lugar, poderíamos rastrear um velho da idade do seu pépé que ainda esteja vivo. Alternativamente, poderíamos ir à catedral e examinar o registro. Uh, mas isso é algo a considerar mais tarde.
Lumian lembrou-se da recente briga com o padre e decidiu que era melhor evitar a catedral, a menos que fosse absolutamente necessário.
Por ser a única catedral de Cordu, detinha um poder significativo, atuando até mesmo como entidade governamental. Ela registrou todos os eventos significativos, incluindo mortes e casamentos.
Antes que Reimund pudesse perguntar mais alguma coisa, Lumian interveio: — Vamos nos separar e ver quem se enquadra no perfil. Perguntaremos amanhã.
— Ok. — Reimund concordou imediatamente.
No prédio semi-subterrâneo de dois andares, Aurore ouviu atentamente a história de Lumian, seu olhar penetrante fixo na carta Varinha em sua mão.
— É uma carta comum, oui. Não detecto malícia ou encantamentos.
— Aurore, uh, Grande Irmã, o que você acha das intenções da estrangeira? Como ela soube do meu sonho? — Lumian perguntou.
Aurore balançou a cabeça.
— Agora que ela se mostrou, só podemos esperar para ver.
— Vou ficar de olho nela nos próximos dias.
— Ah… E pegue esta carta. Pode causar mudanças. Mas não tenha medo, estarei observando.
— Tudo bem. — Lumian fez o possível para relaxar.
Na calada da noite, Lumian enfiou habilmente a carta Varinha nas roupas penduradas nas costas da cadeira, depois enfiou-se sob as cobertas e fechou os olhos.
Em pouco tempo, uma névoa densa e cinzenta envolveu novamente sua visão.
Sem aviso, acordou de repente em seu devaneio.
Ele sentiu sua mente clarear e uma lucidez recém-descoberta tomou conta.
No entanto, o mundo dos sonhos envolto na mesma névoa obscura persistia.
Circle of Inevitability - Capítulo Seis: – Ruínas.
O olhar subconsciente de Lumian percorreu o quarto, observando coisas familiares: mesa, cadeira, estante, guarda-roupa e cama.
Era o quarto dele, mas estava envolto em uma névoa fina e cinzenta.
“Isso é algum tipo de sonho lúcido? Estou tendo um sonho lúcido?” Suas pupilas dilataram quando percebeu.
Um sonho lúcido era uma ocorrência rara em que a mente podia pensar e lembrar como se estivesse em estado acordado ainda no sonho. Era uma habilidade que exigia treinamento especializado para ser dominada.
Aurore tentou vários métodos para induzir sonhos lúcidos, a fim de desvendar o segredo do sonho da névoa cinza de Lumian e ajudá-lo a eliminar o perigo latente que representava, mas ela falhou.
Mas agora, Lumian se encontrava inexplicavelmente consciente em seu sonho.
À medida que o choque da situação passou, ele começou a considerar a possibilidade do porquê disso ter acontecido.
“Será por causa da carta de tarô que representa o Sete de Paus?”
“Aquela mulher disse que isso me ajudaria a desvendar o segredo do sonho.”
“Portanto, sua função é permitir-me entrar em estado de sonho lúcido e explorar a área envolta pela névoa cinza?”
“Hmm… Comparado com minha impressão anterior, a névoa cinza parece ter desaparecido bastante. Muito mais…”
Com esses pensamentos passando por sua mente, Lumian levantou-se da cadeira e caminhou para o lado da sala. Colocou as mãos sobre a mesa encostada na parede e olhou pela janela, onde uma paisagem completamente desconhecida saudou seus olhos.
Esse sonho não reproduzia a Cordu onde ele morava.
Sob uma névoa fina e fantasmagórica, o imponente pico de uma montanha chamou a atenção de Lumian. Elevava-se de vinte a trinta metros no ar, construída com pedras vermelho-acastanhadas e solo marrom-avermelhado.
Prédios cercavam a montanha, agora em ruínas, caídos ou carbonizados de forma irreconhecível.
Pareciam criptas, um cemitério desordenado que cercava a base da montanha.
O chão estava marcado por buracos e coberto de cascalho. Nem uma grama ou uma única erva daninha foi encontrada neste deserto árido.
A névoa no céu se adensou até um branco impenetrável, sem nenhuma indicação de sol. Lumian só conseguia enxergar como se estivesse na calada da noite, sob a luz das estrelas.
Após um momento de observação, ele murmurou para si mesmo: — É isso? Este é o sonho que me assombra há anos?
Mas logo ele redirecionou seus pensamentos para uma questão mais prática:
“Onde está escondido o segredo do sonho?”
“No pico ou em um desses prédios destruídos?”
Lumian não teve pressa em sair do quarto e explorar o sonho. Em vez disso, permaneceu onde estava, examinando a área do seu ponto de vista privilegiado.
De repente, avistou uma pessoa correndo pelas ruínas dos edifícios que cercavam o pico da montanha.
Apesar da névoa tênue e da altura limitada da casa de dois andares, Lumian não conseguia se livrar da sensação de sua presença. Ele se perguntou se estava tendo alucinações.
Respirando fundo, Lumian murmurou para si mesmo: “Fique calmo. Seja paciente. Fique calmo. Seja paciente.”
“Pelo que posso ver, esse sonho está envolto em segredo e não parece inteiramente meu.” Lumian sabia que explorá-lo cegamente poderia levar ao perigo.
“Sim, procurarei essa mulher amanhã e verei que informação posso encontrar. Então, tomarei uma decisão…”
Perdido em pensamentos, Lumian desviou o olhar e se preparou para sair do sonho para descansar em paz.
No entanto, não sabia como acordar quando já estava acordado.
Após inúmeras tentativas de despertar, ele se deitou na cama e tentou desorganizar seus pensamentos, tentando recriar o estado em que se encontrava enquanto dormia.
Depois de um período de tempo indeterminado, Lumian sentou-se abruptamente e notou o leve brilho da luz dourada do sol filtrando-se na sala através das cortinas.
“Finalmente estou acordado…”
“Como esperado, dormir durante o sonho restaura meu estado de desorientação. Então, eu posso escapar…”
Lumian deu um suspiro de alívio e sussurrou para si mesmo.
Naquele momento, uma batida reverberou na porta.
— Aurore? — O coração de Lumian apertou, temendo o pior.
— É eu, — a voz de Aurore se infiltrou no quarto.
Lumian saltou da cama e correu para a entrada. Agarrou a maçaneta e abriu-a.
Vejam só, era Aurore do lado de fora. Ela vestia uma camisola de seda branca e suas longas tranças de cabelos dourados caíam elegantemente em cascata pelas costas.
— Como foi? — Ela parecia certa de que Lumian acabara de acordar.
Lumian não escondeu nada e contou todos os detalhes que ocorreram.
Aurore assentiu pensativamente.
— O objetivo da carta era facilitar um sonho lúcido…
Ela perguntou: — O que você vai fazer a seguir?
Lumian grunhiu secamente.
— Vou comer alguma coisa antes de visitar a mulher e tentar reunir mais informações para discernir suas verdadeiras intenções.
— Muito bem. — Aurore não fez nenhuma objeção.
Ela acrescentou: — Também escreverei uma carta para alguém perguntando sobre o sonho que você contou e os símbolos nele contidos.
Nesse momento, ela vislumbrou a expressão subitamente apreensiva de Lumian e sorriu.
— Não se preocupe, farei ajustes. Não abandonarei tudo de uma vez. Afinal, fui eu quem incutiu em você o princípio do progresso gradual.
— Bem, quando você conversar com aquela mulher, não seja agressivo. Esforce-se para ser amigável. Não é que tenhamos medo dela, é simplesmente melhor adquirir outro aliado do que um adversário adicional.
— Entendido, — Lumian respondeu solenemente.
Cordu, Antigo Bar.
Lumian entrou no Antigo Bar e se aproximou do balcão. Ele se inclinou e falou com Maurice Bénet, o dono do bar que também trabalhava como bartender.
— Qual quarto a mulher estrangeira ocupa lá em cima?
O Antigo Bar, a única pousada do vilarejo, ostentava seis quartos no segundo andar para os hóspedes descansarem.
Maurice Bénet não era um homem corpulento. Como a maioria da aldeia, ele tinha cabelos negros e olhos azuis, mas seu nariz estava sempre vermelho, consequência do hábito de beber muito.
Era parente do padre da Igreja, Guillaume Bénet, mas os dois não eram próximos e eram apenas primos distantes.
— Por que a pergunta? — Maurice Bénet perguntou, com a curiosidade despertada. — Que negócio uma mulher de cidade grande teria com um caipira como você?
Havia uma óbvia expressão de interrogação em seu rosto. Maurice tinha um sexto sentido para essas coisas, especialmente quando se tratava de homens e mulheres.
Lumian zombou: — Você também não é um caipira? — Ele casualmente inventou um motivo: — A mulher perdeu algo ontem à noite. Encontrei esta manhã. Apenas estou tentando devolver sua propriedade.
Maurice Bénet não acreditou nem por um segundo. — É isso mesmo?
Oito em cada dez coisas que saíram da boca de Lumian eram mentiras.
— O que mais? Você acha que ela vai se apaixonar por mim? — Lumian disse, destemido.
— Isso é verdade. — Maurice Bénet estava convencido. — Ela está no quarto de frente à praça, em frente aos banheiros.
Depois que Lumian saiu, Maurice poliu um copo, acompanhando-o com os olhos. Ele sussurrou, quase inaudível para Lumian: — Impossível? Nem sempre. Às vezes as pessoas querem tentar algo novo…
Lumian encontrou o banheiro no segundo andar, o único ponto de luz no corredor estreito e escuro. Mas seus olhos foram atraídos para a porta em frente. Um pedaço de papel pendurado na alça de latão, totalmente branco sobre a madeira vermelha escura.
Escrito nele na língua de Intis: “Atualmente descansando. Não perturbe.”
Lumian leu o bilhete por alguns segundos. Em vez de correr para bater na porta, deu dois passos para trás e ficou encostado na parede.
Ele planejava esperar aqui até que a mulher saísse.
A vida nas ruas lhe ensinou duras lições. Quando uma oportunidade aparecia, você a agarraria com as duas mãos, sem hesitação, sem dúvidas, sem medo. Caso contrário, ela escorregaria por entre seus dedos e você voltaria ao ponto de partida. Então ele esperaria o tempo que fosse necessário, os minutos passavam interminavelmente enquanto ele ignorava os olhos que sentia rastreá-lo, os sussurros em sua mente.
Ele ficou ali sem nenhum sinal de frustração, provavelmente capaz de se passar por uma estátua.
Finalmente, um rangido suave.
A mulher vestiu um vestido verde claro com bordas brancas. Seu cabelo castanho estava preso em um coque apertado.
Aqueles olhos azuis claros se voltaram para Lumian antes de passarem para a placa de papel na maçaneta da porta, um sorriso dançando no canto de sua boca.
— Por quando tempo você esperou? — ela perguntou, nem um pouco surpresa em vê-lo ali.
Lumian deu um passo à frente e disse: — Isso não é importante.
Ele tentou manter o tom uniforme, para parecer menos ansioso.
— O que você quer perguntar? — disse a mulher, indo direto ao assunto.
Lumian olhou ao redor do corredor vazio. — Aqui?
A mulher respondeu com um sorriso: — Se você não se importa, eu também não me importo.
Lumian já havia notado que os outros ocupantes do bar, incluindo Ryan e Leah, não foram encontrados em lugar nenhum. Não havia mais ninguém no segundo andar, exceto ele e a mulher à sua frente.
Lumian perguntou, organizando seus pensamentos com cuidado.
— Qual é o segredo desse meu sonho?
A mulher riu involuntariamente.
— Isso é para você responder, não eu.
Ela parou por um momento antes de dizer: — Tudo o que posso dizer é que você encontrará um poder extraordinário lá.
“Poder extraordinário…” Seu pulso rugia em seus ouvidos.
— Qual é o sentido, se é apenas um sonho? Não vai mudar nada aqui.
Os lábios da mulher se curvaram em um sorriso.
— Quem pode dizer o que é possível, no reino do extraordinário? Talvez seja possível?
“Depois de tudo, o poder que anseio está aí para ser tomado?” A respiração de Lumian ficou presa.
O sorriso desapareceu quando a mulher acrescentou seriamente: — Mas o perigo também se esconde lá. Morra no sonho, você morre aqui.
“Morrer no sonho, morrer de verdade?” Lumian não entendeu, mas optou por acreditar.
Esse sonho se agarrou a Lumian como uma sombra, como acontecia há anos. Mas era diferente, de alguma forma. Especial. E a voz de Aurore sussurrou em sua memória: — Cuidado nunca é uma má ideia. Lumian preferiu ver a situação como desafiadora e as consequências como graves. Ele não podia se dar ao luxo de subestimar o perigo ou ser descuidado.
Depois de alguns segundos, ele perguntou: — Se eu ficar fora? E então?
— Teoricamente falando, não haverá consequências. Ninguém vai forçá-lo, — disse a mulher pensativa. — Mas com o passar do tempo, não posso ter certeza de que a situação não mudará. E a probabilidade de as coisas darem errado é muito maior do que as coisas darem certo.
— Quanto mais alto? — Lumian pressionou. — 90% e 10%?
— Não, 99,99% a 0,01%. — A mulher acrescentou seriamente: — Claro, este é apenas meu julgamento pessoal. Você pode optar por não acreditar.
Lumian sentiu uma onda de incerteza tomar conta dele, sua mente fervilhando de pensamentos conflitantes.
“Recentemente, estou me convencendo de que o sonho é um perigo oculto. Não se importar é a pior escolha…”
“Mas se eu realmente quiser explorá-lo, há uma grande chance de que um acidente aconteça sem qualquer conhecimento…”
“Devo esperar que Aurore colete mais informações de seus amigos por correspondência antes de fazer uma tentativa?”
“Mas se eu fizer isso, Aurore definitivamente não me permitirá usar a exploração dos sonhos para obter poderes extraordinários…”
“Minha investigação da lenda não foi para buscar poderes extraordinários?”
“É muito arriscado. Pode levar à morte…”
“Talvez eu devesse fazer uma exploração preliminar à beira das ruínas dos sonhos para coletar informações e não correr o risco de entrar?”
“Hmm, posso contar a Aurore sobre a conversa, mas não posso revelar a possibilidade de obter poderes extraordinários…”
Assim que seus pensamentos se acalmaram, Lumian olhou para a mulher à sua frente e perguntou em tom baixo e sério: — Quem é você exatamente? Por que você me deu aquela carta de tarô e a oportunidade de explorar o sonho?
A mulher sorriu enigmaticamente.
— Eu lhe contarei assim que você tiver desvendado o mistério do sonho.
Circle of Inevitability - Capítulo Sete: – Naroka.
Assim que Lumian saiu do Antigo Bar, ele se viu parado na estrada irregular, sem saber para onde ir em seguida.
O sol da manhã batia sobre ele, embora com um leve frio no ar.
Enquanto deliberava sobre seu próximo movimento, Reimund Greg surgiu pela lateral.
— Eu estava apenas procurando por você.
Lumian rapidamente recuperou a compostura e perguntou: — Qual é o problema?
Reimund pareceu surpreso.
— Você esqueceu? Hoje devemos procurar os idosos, mais ou menos da mesma idade do meu pépé, e perguntar sobre a lenda do Bruxo.
Nota: pépé significa avô.
Lumian gemeu, pressionando a mão na testa em agonia.
— É mesmo? Por que não consigo me lembrar? Ou isso é apenas sua imaginação?
A expressão de Reimund mudou de preocupação para medo. Quando ele estava prestes a perguntar mais e confirmar se havia imaginado os acontecimentos do dia anterior, o rosto de Lumian se iluminou com um sorriso travesso.
— Seu malandro, você está brincando comigo de novo! — Reimund praguejou, incapaz de conter seu aborrecimento.
— Você precisa melhorar seu xingamento, — Lumian repreendeu, balançando a cabeça em decepção. — Até Ava pode amaldiçoar melhor do que você.
Ava Lizier, a linda filha do renomado sapateiro da vila Cordu, Guillaume Lizier, era agora pastora de gansos.
A expressão de Reimund mudou quando ele murmurou: — Ava…
Ele então olhou para Lumian. — Ela é nossa amiga, certo?
Lumian assentiu com um sorriso. — Na verdade, sim.
O trio, junto com Guillaume dos Berrys e a prima de Ava, Azéma Lizier, eram adolescentes inseparáveis que muitas vezes passavam os dias juntos.
— Por que não trazemos Ava com a gente para nos ajudar a descobrir a verdade por trás da lenda? — Reimund sugeriu. — Como você sabe, o pai dela sempre dizia: ‘Por que um dote deve ser pago quando uma mulher se casa? Quantas famílias boas caíram assim?’ Dói para ela ouvir isso. Ela poderia ficar aliviada se conseguisse algum tesouro ou recompensa com a investigação.
— Também ouvi os chefes de várias famílias da aldeia dizerem coisas semelhantes, incluindo o nosso padre, — acrescentou Lumian com um sorriso malicioso. — Eles desejam que seus irmãos fiquem em casa para sempre. Mesmo que se casem, não se aventurando sozinhos para constituir família. Isso exigiria que dividissem os bens e lhes dessem a parte que merecem.
Lumian lançou um olhar furtivo para Reimund e continuou: — Portanto, muitas famílias preferem deixar um de seus filhos se tornar pastor.
A expressão de Reimund escureceu gradualmente enquanto ele considerava as implicações desta questão.
Ele nunca havia pensado muito profundamente sobre isso antes.
Era exatamente por isso que ele gostava de passar tempo com Lumian. Embora a maioria das pessoas na aldeia acreditasse que Lumian tinha um caráter pobre e gostava de mentir e pregar peças, na verdade, ele tinha mais conhecimento do que qualquer pessoa de sua idade. Reimund, por outro lado, sentia que não sabia muito e passava os dias atordoado, simplesmente cumprindo os preparativos de sua família.
“É bom que você saiba…” Lumian pensou consigo mesmo antes de habilmente direcionar a conversa de volta à investigação.
— Agora é tarde demais. Devemos nos apressar e perguntar por aí. Traremos Ava amanhã. Sim, também podemos trazer Guillaume-júnior e Azéma mais tarde. Isso não apenas levará potencialmente a ganhos, mas também será uma atividade fascinante que pode treinar nossas habilidades.
— Trazer Guillaume-júnior e Azéma também? — Reimund resmungou a contragosto.
Quanto mais pessoas envolvidas, menor seria a sua parte nas recompensas.
Além disso, se os incluísse, teria menos chances de conquistar o afeto de Ava.
Lumian olhou para ele com um toque de bondade e pena no olhar.
“Criança boba, você acha que Ava vai se apaixonar por você? Suas sobrancelhas são muito altas e ela só quer se casar com alguém de uma boa família. Ela claramente tem uma certa impressão favorável de mim, um ‘vilão’, mas ela consegue se controlar…”
Na região de Dariège, ter sobrancelhas altas significava ter padrões elevados, e eles não se contentavam com qualquer cara comum.
— Minha irmã sempre disse que há força nos números, — explicou Lumian com simplicidade. — Quem são os velhos corvinas que precisamos visitar?
— Você não investigou? — Reimund perguntou surpreso.
“Como eu poderia ter energia para investigar após o incidente com a carta Varinha?” Lumian sorriu e brincou: — É claro que investiguei. Estou apenas testando sua capacidade de coletar informações.
Reimund não teve dúvidas.
— Há nove idosos que ainda estão vivos na aldeia. Eles têm mais ou menos a mesma idade do meu pépé, ou um pouco mais velhos…
“Seis mulheres e três homens. As mulheres vivem mais…” Lumian ouvia em silêncio, imerso em pensamentos.
— Não há necessidade de visitar os dois últimos. Eles são de outra aldeia e vieram para cá através do casamento.
— Vamos começar com Naroka. Ela é a mais velha e poderia ser adulta quando o incidente do Bruxo aconteceu.
O nome verdadeiro de Naroka não era Naroka. Era um título de respeito para ela.
Na província de Riston, as mulheres casadas de famílias proeminentes ou aquelas que eram as verdadeiras chefes de família tinham direito ao título de “Madame”. Mais do que isso, seus nomes eram marcados com um “a” para proclamar sua feminilidade, e prefixados com “Na” para significar sua autoridade como Madames reinando sobre seus domínios.
A família de Madame Pualis estava em declínio há muito tempo e, em casa, ela submetia-se obedientemente ao marido Béost, o administrador provincial. Portanto, ela não tinha um prefixo “Na” ou um sufixo “a”. Ela só poderia ser chamada de “Madame”.
Naroka ficou viúva cedo e, como resultado, assumiu as contas da família. Apesar de seus dois filhos atingirem a maioridade, se casarem e terem seus próprios filhos, ela manteve estrito controle sobre a fortuna da família.
Esta era uma ocorrência rara em Cordu, onde os homens geralmente cuidavam dos assuntos da família. Nas famílias em que o pai estava ausente, o filho mais velho naturalmente recuperaria da mãe a autoridade de administrar toda a família quando atingisse a idade adulta.
— Ok, — Reimund concordou sem questionar a decisão de Lumian.
Ao passarem por alguns prédios, Lumian avistou quatro mulheres idosas tomando sol enquanto conversavam casualmente em frente a uma casa de dois andares.
Sentavam-se muito próximas uma da outra, pegando piolhos no corpo uma do outra, o que era uma forma de diversão no interior da República Intis que servia para aproximar as pessoas e expressar afeto.
— Vamos perguntar a ela agora? — Reimund hesitou, preocupado que a busca pela verdade por trás da lenda pudesse se espalhar por toda a aldeia.
— Vamos esperar mais um pouco, — respondeu Lumian solenemente, sabendo que muitos rumores na aldeia foram gerados e espalhados por meio de tais reuniões.
Depois de um tempo, as outras três idosas foram embora uma a uma porque ainda tinham trabalho para fazer em casa.
— Bom dia, Naroka. — Lumian imediatamente se aproximou.
O cabelo de Naroka estava grisalho e seus olhos estavam ligeiramente turvos. Ela usava um vestido escuro feito de tecido áspero e suas mãos estavam cobertas por uma camada de pele enrugada com manchas óbvias no rosto.
— Quando Aurore se juntará a nós? Muitas pessoas na aldeia sentem falta dela, — Naroka perguntou com um sorriso.
“Os homens, suponho?” Lumian entrou em um estado ideal para negociações e perguntou curioso: — Naroka, você realmente viu um Bruxo de verdade? Aquele cujo caixão nove touros não conseguia se mover?
O rosto de Naroka mudou ligeiramente.
— Quem te contou isso?
— Seu pépé voltou uma noite para contar a ele. — Lumian começou a falar bobagens.
Naroka ficou atordoada. — As almas podem realmente retornar…
— Meu papai me contou que Pépé havia mencionado isso quando era vivo, — interrompeu Reimund, incapaz de ver Lumian enganar a senhora idosa.
A expressão de Naroka caiu. Depois de um momento de contemplação, ela falou.
— Antes de ele falecer, nenhum de nós sabia que ele era um Bruxo. Ele agia perfeitamente normal.
“Assim como você não sabe que Aurore é uma Bruxa…” Lumian pensou consigo mesmo.
— Até que ele morreu de repente e aquela coruja voou… — Naroka parou, perdida em suas memórias.
O resto de sua história refletia a lenda.
Lumian pressionou ainda mais.
— Onde aquele Bruxo residia naquela época?
Naroka olhou para ele.
— É onde você e Aurore estão morando agora.
— Depois que Bruxo foi sepultado, o padre e alguns outros saquearam o local e o incendiaram. Por duas ou três décadas, ninguém se atreveu a se aproximar daquele local. Eventualmente, o assunto foi esquecido. Mais tarde, Aurore veio e comprou o terreno para reconstruir a casa.
“Nossa casa?” O coração de Lumian disparou.
Esta resposta foi completamente além de suas expectativas!
Num piscar de olhos, ele percebeu que havia uma infinidade de problemas que havia ignorado anteriormente.
Com o talento de Aurore para ganhar dinheiro e suas habilidades misteriosas e sobrenaturais, por que diabos ela se estabeleceria na zona rural de Cordu?
Cidades como a capital provincial, Bigorre, o movimentado centro têxtil de Suhit, ou mesmo a própria capital, Trier, seriam opções muito melhores. Mesmo que Aurore procurasse um lugar com ar puro e um ambiente imaculado, esses centros urbanos ostentavam muitas áreas que atendiam às suas necessidades.
Aurore uma vez lhe disse: — A melhor maneira de se esconder é se esconder em uma cidade grande… A mente de Lumian disparou enquanto ele lutava para se acalmar.
Hoje, descobriu que o terreno que Aurore escolheu para sua casa, o terreno onde ficava sua casa, já pertenceu a um poderoso Bruxo…
— Onde o Bruxo está enterrado? — Reimund interrompeu, incapaz de conter sua curiosidade.
Sem esperança de encontrar riquezas na casa de Lumian, ele só podia esperar que o corpo do Bruxo guardasse algum tipo de segredo valioso.
Naroka disse divertida: — Este foi um grande problema. Sem dúvida soou o alarme para o padre.
— Antigamente, nove touros foram reunidos para puxar o caixão até o cemitério ao lado da catedral. O padre realizou um ritual para purificá-lo. Por fim, o corpo foi cremado e os restos mortais enterrados em uma cova.
Reimund não conseguiu esconder sua decepção e murmurou: — Entendo.
— Por que querem saber disso? — Naroka examinou o rosto de Reimund antes de questionar.
Lumian gargalhou e contou uma história que mais parecia uma invenção. — Procuramos o tesouro do Bruxo.
— Garoto, não perca seu tempo sonhando acordado, — alertou Naroka.
— Entendido, — Lumian respondeu humildemente.
Lumian e Reimund despediram-se de Naroka e pegaram a estrada em direção à praça da cidade.
— Não há esperança, Lumian. Nenhuma, — Reimund murmurou, seu ânimo afundando enquanto eles circulavam um prédio.
— De fato. Tudo o que poderia ter sido queimado, foi queimado. Tudo o que poderia ter sido levado, foi levado décadas atrás, — respondeu Lumian, balançando a cabeça em concordância.
Apesar da situação sombria, Lumian não ficou desapontado graças à oportunidade que sonhou.
Reimund concordou.
— Sim, você está certo. De todas as histórias, apenas aquela maldita coruja ainda permanece.
Os olhos de Lumian brilharam quando ele voltou seu olhar para a floresta além da aldeia. “Coruja…” ele murmurou.
Reimund recuou horrorizado e acrescentou apressadamente: — Mas deve ter morrido há anos.
Ele não gostava de se associar com corujas e outras criaturas malignas.
No sul de Intis, pensava-se que corujas, rouxinóis e corvos eram seres sinistros que serviam aos demônios, roubando almas humanas e trazendo apenas infortúnio.
Nota: rouxinó é um passaro.
Circle of Inevitability - Capítulo Oito: – Coruja.
A ideia atingiu Lumian como um raio, mas ele não estava particularmente interessado em levá-la adiante.
Ignorando o fato de que anos se passaram desde a morte do Bruxo e que a expectativa de vida das corujas era insignificante em comparação com a dos humanos, o grande número de pássaros na montanha era suficiente para fazer Lumian reconsiderar.
Havia muitas malditas aves!
“Aquela coruja não tem nenhuma marca distinta… Não, nas lendas não havia menção de nada específico sobre a coruja. Naroka não revelou tudo… Não investigamos profundamente o suficiente…” Ele saiu de seus pensamentos e lançou um sorriso tranquilizador para Reimund.
— Uma coruja vinculada a um Bruxo poderia viver cem anos.
Enquanto Reimund tremia de medo, ele o tranquilizou com uma voz calma: — Não se preocupe, mon ami. Este é meu último recurso. Não desejo encontrar um monstro.
Nota: mon ami significa meu amigo.
— Talvez devêssemos consultar outro velho sábio. Naroka pode ter esquecido uma pista vital.
O tom do homem tornou-se sedutor enquanto ele continuava: — Se eu fosse um Bruxo, não manteria todos os meus tesouros comigo ou em minha casa. Esconderia alguns para o caso de a Inquisição me atacar. Não teria o luxo de ter tempo para recolher meus pertences. Quando fugisse, eu ficaria na miséria.
A Inquisição da Igreja do Eterno Sol Ardente era famosa por caçar Bruxos e Bruxas. Seus feitos heroicos foram celebrados em todo lugar.
O rosto de Reimund iluminou-se de excitação quando ele exclamou: — Você está certo!
Ele disse com uma expressão ansiosa: — É uma pena. Muitos anos se passaram. As riquezas descobertas pela Igreja devem ter sido confiscadas há muito tempo.
— Mon ami, esse é um pensamento perigoso, — brincou Lumian.
Implacáveis, eles continuaram suas visitas a Pierre-père, Naferia e outros idosos da família Maury.
Embora suas respostas refletissem as de Naroka, Lumian e Reimund, com sua nova experiência, conseguiram extrair mais detalhes.
Por exemplo, a coruja era de tamanho médio e se assemelhava à sua espécie. Tinha bico pontudo, rosto felino, penas marrons com manchas espalhadas, olhos amarelo-acastanhados e pupilas pretas…
No entanto, era maior que a coruja normal e seus olhos pareciam girar. Não era tão rígido ou estúpido quanto deveria.
Todas essas peculiaridades faziam com que a coruja parecesse ainda mais sinistra em suas descrições.
— Parece que chegamos a um beco sem saída, — afirmou Lumian a Reimund enquanto caminhavam para a praça da cidade. — Devemos nos concentrar em outras lendas.
Reimund não ficou tão desanimado como antes. — Concordo. Mas qual devemos perseguir?
“Este sujeito é tão pró-ativo e trabalhador…” Lumian elogiou silenciosamente o entusiasmo e diligência de Reimund e preparou uma recompensa para ele.
Ele assentiu e disse: — Não se apresse e reflita sobre isso. Discutiremos amanhã. Vou transmitir-lhe técnicas de combate esta tarde”
— Maravilhoso! — Reimund exclamou, muito feliz com a instrução imprevista.
Aurore era uma lutadora habilidosa. Afinal, de que outra forma ela poderia lidar com os homens selvagens e rudes da aldeia? Seu irmão mais novo provavelmente seria igualmente proficiente.
Depois de se despedir de Reimund Greg, Lumian seguiu pela trilha que levava à sua casa.
Enquanto caminhava, avistou um grupo de homens se aproximando dele.
O líder estava na frente, não ultrapassando 1,7 metros de altura. Ele usava uma túnica branca e tinha cabelos pretos claros.
Com um comportamento majestoso e traços faciais decentes, a ponta do nariz se curvou levemente em indisfarçável desgosto e malícia enquanto ele olhava para Lumian com seus olhos azuis.
Ninguém menos que o padre da Igreja do Eterno Sol Ardente em Cordu, Guillaume Bénet.
— Há muito tempo que espero a sua chegada, — gritou Guillaume Bénet em voz de barítono. — Você trouxe deliberadamente esses estrangeiros para a catedral?
Lumian tentou se explicar enquanto dava um passo para trás furtivamente. — Eu pensei que você estava dormindo lá dentro.
Ele notou Pons Bénet — o irmão mais novo do padre — ao lado de Guillaume Bénet. Pons tinha trinta e poucos anos, era musculoso, dominador e valentão.
Os outros indivíduos que estavam com eles eram capangas do padre.
Guillaume Bénet sinalizou para Pons com um olhar enquanto Lumian recuava.
O sorriso de Pons Bénet tornou-se sinistro quando ele avançou, gritando:
— Patife, é hora de você saber quem é o foda aqui!
Antes que pudesse completar a frase, Pons já havia acelerado os passos e atacado Lumian. Os outros brutos seguiram o exemplo.
Em Cordu, um lugar onde a lógica não tinha influência e as desculpas caíam em ouvidos surdos, a força bruta era a única linguagem que podia impor respeito. Guillaume Bénet, o padre, sabia disso muito bem, já tendo recorrido à violência inúmeras vezes. Assim, quando soube que os forasteiros haviam sido conduzidos à catedral por Lumian, o padre não perdeu tempo em agir. Ele estava determinado a agarrar o encrenqueiro e subjugá-lo até que ficasse acamado por um mês. O padre fez questão de mostrar a Lumian o erro de sua atitude e não descansaria até que alguém pagasse o preço por sua insolência.
Claro, ele tinha que evitar Aurore.
Quanto à lei, bastava notificar o administrador e o juiz do território, Béost. Era improvável que os xerifes da cidade investigassem uma questão tão pequena no campo.
Como estranho, Béost não ofenderia um padre nascido localmente, a menos que houvesse um conflito de interesses significativo.
Guillaume Bénet sentiu-se feliz por os estrangeiros não terem divulgado a ninguém o seu caso com Madame Pualis, a mulher do administrador. Ele ainda não sabia disso.
Apesar da velocidade, Lumian foi mais rápido. Assim que Pons falou, Lumian girou e saiu correndo.
Ele estava familiarizado com o caráter e os métodos do padre.
Anteriormente, um aldeão acusou Guillaume Bénet de ter múltiplas amantes e de desviar ofertas do Eterno Sol Ardente. Ele também intimidou outras pessoas incansavelmente na aldeia, dificilmente se comportando como um homem do clero. Posteriormente, o aldeão morreu misteriosamente uma tarde.
Thud! Thud! Thud!
Lumian correu como o vento.
— Espere pelo seu papai, hein? Obedeça ton père! — Pons gritou enquanto o perseguia. Seu ritmo também não era lento.
Nota: ton père significa seu pai.
Os bandidos o perseguiram de perto.
Em vez de fugir pela estrada principal, Lumian disparou para a casa mais próxima.
A família estava preparando o almoço na cozinha quando de repente viu um estranho entrar.
Com um swoosh, Lumian passou por eles e saltou pela janela da cozinha nos fundos.
Quando Pons e seus comparsas entraram, o proprietário já havia recuperado os sentidos. Ele se levantou para confrontá-los e perguntou: — O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo?
— Sai da frente, velho! — Pons empurrou o proprietário para o lado com força, mas isso o atrasou.
Quando chegaram à janela e saltaram, Lumian já havia desaparecido em outra trilha.
Depois de persegui-lo por um tempo, perderam Lumian completamente de vista.
— Sacrebleu, ces chiens fous! — Pons cuspiu na beira da estrada.
Nota: a parte em francês se traduz como Porra, esse cachorro maluco.
Do lado de fora da residência semi-subterrânea de dois andares, Lumian respirou fundo antes de finalmente abrir a porta e entrar na casa como se nada tivesse acontecido.
— Um, dois, três, quatro; dois, dois, três, quatro… — Uma série de sons rítmicos reverberou em seus ouvidos.
Lumian olhou para o espaço vazio do outro lado da cozinha e observou o cabelo loiro de Aurore preso em um rabo de cavalo. Ela usava uma camisa de linho, calças brancas justas e botas escuras de pele de carneiro, saltando e encharcada de suor.
Em Cordu, a cozinha ocupava a maior parte do espaço do primeiro andar, servindo como núcleo da família. Cozinhar e jantar aconteciam aqui, assim como receber convidados.
“Ela está se exercitando de novo…” Lumian estava acostumado com as excentricidades de Aurore e não se incomodava com seu regime de exercícios.
Aurore costumava fazer coisas estranhas sem dar qualquer motivo quando questionada.
“No mínimo, fazer exercícios é benéfico e é um verdadeiro banquete para os olhos…” Lumian observou em silêncio.
Depois de um tempo, Aurore parou e se agachou para desligar o gravador preto.
Ela pegou a toalha branca de Lumian e o instruiu enquanto enxugava o suor da testa,
— Lembre-se, temos treino de combate esta tarde.
— Eu tenho que estudar e aprender combate. Você não está exigindo muito de mim? — Lumian resmungou com indiferença.
Aurore olhou para ele, sorrindo, e respondeu: — Você deve lembrar que nosso objetivo é o desenvolvimento abrangente das cinco educações: moralidade, intelecto, físico, estética e trabalho!
Quanto mais ela falava, mais feliz ficava, como se estivesse lembrando de algo bonito ou divertido.
“Já fui reprovado na educação moral…” Lumian murmurou baixinho.
Ele perguntou: — Que tipo de combate?
Uma das coisas que ele não conseguiu compreender foi que Aurore, que parecia delicada e frágil, era uma especialista em combate. Ela dominava inúmeras técnicas de luta e poderia facilmente vencê-lo.
Aurore ponderou seriamente, inclinou-se ligeiramente para a frente e olhou nos olhos de Lumian.
Ela então riu muito e declarou: — Autodefesa!
— Huh? — Lumian exclamou surpreso. — Isso não deveria ser para meninas?
Aurore se levantou e balançou a cabeça gravemente, dizendo sinceramente: — Os meninos devem se proteger quando estão fora. Quem disse que os meninos não encontram pervertidos?
O sorriso em seus lábios não estava mais escondido.
Lumian não tinha certeza se sua irmã estava brincando ou falando sério, então permaneceu em silêncio enquanto pegava a toalha branca e se dirigia para as escadas.
De repente, sentiu algo apertar seu pé, como se tivesse tropeçado em um obstáculo. Ele tropeçou para frente.
No ar, Lumian contraiu apressadamente o abdômen, estendeu o braço e encostou-se na cadeira ao lado dele. Ele deu uma cambalhota e mal caiu de pé.
Aurore retraiu a perna e riu.
— Um dos princípios fundamentais do combate é estar sempre vigilante.
— Lembre disso, meu irmão mais novo.
Sua mão direita já havia agarrado as costas de Lumian, mas quando viu que ele havia recuperado o controle do corpo, ela o soltou.
— É porque eu confio demais em você… — Lumian resmungou.
Ele contemplou o assunto e percebeu que essa confiança não tinha sentido. Ele havia perdido a conta de quantas vezes esteve à mercê de Aurore.
Aurore tossiu e conteve a expressão.
— Como foi com aquela mulher?
Lumian forneceu um breve resumo da conversa antes de declarar: — Pretendo esperar a resposta de seus amigos antes de mergulhar no sonho.
— Decisão inteligente, — afirmou Aurore.
Lumian mudou de assunto.
— O que há para o almoço?
— Ainda temos algumas torradas desta manhã. Vou assar mais quatro costeletas de cordeiro para você, — respondeu Aurore depois de refletir por um momento.
— E você? — Lumian perguntou.
Aurore disse casualmente: — Vou comer apenas pedaços de frango com trufas de bambu cobertos com um pouco de queijo e sopa de cebola. Experimentei da última vez e achei bastante…
Antes que pudesse terminar de falar, ela congelou de repente.
No momento seguinte, ela levantou as mãos para cobrir os ouvidos. Os músculos de seu rosto se contorceram gradualmente, fazendo-a parecer um tanto feroz.
Lumian observou silenciosamente, com os olhos cheios de ansiedade e apreensão.
Depois de um tempo, Aurore exalou profundamente e voltou ao seu estado normal.
Sua testa estava encharcada de suor mais uma vez.
— O que aconteceu? — Lumian perguntou.
Aurore sorriu e respondeu: — O zumbido em meus ouvidos está aumentando de novo. Você sabe que tenho esse velho problema.
Lumian não investigou mais. Em vez disso, disse: — Tudo bem, então prepararei o almoço. Descanse bem.
Cada vez que isso acontecia, seu anseio por habilidades extraordinárias ficava mais forte, à medida que se tornava um assunto urgente.
Circle of Inevitability - Capítulo Nove: – Revista.
À medida que a noite caía, Lumian terminou de negociar com os vizinhos que vieram pedir o forno emprestado. Ele subiu até o segundo andar, entrando na sala que servia de escritório de Aurore.
Em Cordu, muitas pessoas estavam desamparadas e não podiam comprar seus próprios fornos ou fogões grandes. Quando precisavam torrar pão ou defumar carne, tinham que pegar emprestado de outras pessoas e usar na hora.
Aurore sempre foi tolerante e complacente quando se tratava disso. Qualquer um poderia pegar emprestado o forno, mas teria que pagar os custos do combustível ou trazer seu próprio carvão e lenha.
Atualmente, ela vestia sua camisola de seda branca e estava deitada em uma cadeira reclinável, seu foco apenas no livro que segurava sob a brilhante lâmpada alimentada por bateria na mesa.
Lumian não queria incomodá-la, então puxou indiferentemente um livro mais fino da estante e sentou-se no canto.
“Véu Oculto… Que tipo de revista é essa?” Lumian ponderou, olhando para a capa adornada com símbolos enigmáticos.
Ele folheou rapidamente as páginas e, quanto mais lia, mais ficava surpreso.
Esta revista investigou a própria existência da alma humana. Discutia como todos os seres tinham um espírito e, através de métodos secretos de comunicação entre diferentes espíritos, era possível obter vários tipos de ajuda.
Mesmo que alguém não fosse devoto, mesmo que só frequentasse a catedral do Eterno Sol Ardente para rezar e participar da missa ocasionalmente, duas palavras não podiam deixar de passar pela mente de Lumian: Sacrilégio! Tabu!
Como uma Bruxa que sem dúvida seria queimada na fogueira pela Inquisição se sua verdadeira identidade fosse exposta, era costume Aurore ter tais livros em sua residência. Porém, Lumian percebeu que esta revista havia recebido permissão do governo para publicação!
“Tal coisa pode ser publicada abertamente?”
“Não disseram que a censura às publicações sempre foi muito rigorosa?”
“Ou é uma licença falsa…” Lumian olhou para Aurore e perguntou: — Esta é uma revista proibida?
Aurore tirou os olhos do livro e olhou para o irmão. Ela respondeu em um tom indiferente: — No passado, era ficção de teoria da conspiração. Mais tarde, por algum motivo, não foi censurada e foi publicada oficialmente. A Igreja do Sol Ardente Eterno, na verdade, não se importou e concordou tacitamente.
— Ficção? — Lumian ficou surpreso com a escolha de palavras da irmã.
— Claro, é ficção. Você não está levando isso a sério, está? — Aurore riu. — Se o que está escrito é verdade, você acha que ainda pode ser publicado? Se você seguir o método escrito nela, além de se tornar mentalmente fraco e neurótico, não haverá nenhum ganho adicional real, mas sem a linguagem ritual correspondente, será um desperdício de esforço, não importa o quanto você tente.
Esta era a avaliação profissional de uma Bruxa.
— Tudo bem… — Lumian não conseguiu esconder sua decepção. — Só acho estranho que isso possa ser publicado.
Aurore respirou fundo, suas bochechas inchadas acentuando sua reflexão.
— Eu também não sei o porquê. Talvez seja porque o mundo tem visto um influxo de eventos sobrenaturais ultimamente, e está se tornando cada vez mais difícil ocultá-los. O público está se tornando mais consciente de sua existência, e o governo está lentamente afrouxando seu controle sobre esses tópicos. É por isso que livros como esses estão sendo publicados. Em Trier, Física, Lótus e Arcana são as revistas mais populares. Tenho todas elas na minha estante. Se você quiser criar histórias mais realistas para o bar, você deveria dar uma lida nelas.
— Oui, — Lumian respondeu ansiosamente, com interesse despertado.
Simultaneamente, ele soltou um suspiro melancólico do fundo de seu coração.
O acervo de livros de Aurore era verdadeiramente impressionante e diversificado!
Graças a esses tomos e às elucidações ocasionais de Aurore, Lumian — um rapaz que abandonou os estudos — conseguiu adquirir uma compreensão razoável do mundo, do continente e da nação que chamava de lar.
O mundo era dividido em dois grandes continentes, um ao norte e outro ao sul, separados pelo traiçoeiro Mar Berserk, onde furacões violentos atingiam qualquer um que ousasse navegar em suas águas. Mas as terras verdadeiramente misteriosas ficavam a leste e a oeste, nos lendários continentes oriental e ocidental. Ninguém jamais havia posto os pés ali, e alguns se perguntavam se eles sequer existiam.
Lumian e Aurore viviam na República Intis, uma terra situada no coração do Continente Norte. Era uma nação limitada pelo Mar da Névoa a oeste, pelo Império Feysac ao norte, e pela cordilheira Hornacis e pelo Reino Loen a leste. Ao sul ficavam o reino Feynapotter, Lenburg e Masin.
Os pequenos países situados entre o Reino Feynapotter e o Reino Loen, como Segar, juntamente com Lenburg e Masin, eram conhecidos coletivamente como os países da região centro-sul. Eles compartilhavam uma fé comum no Deus do Conhecimento e da Sabedoria.
O Continente Sul já havia caído sob o domínio das várias potências do Continente Norte. Quer tenha sido o Império Balam, o Reino da Paz, o Reino Haagenti ou qualquer uma das outras nações, ele praticamente perdeu a sua autonomia. Mesmo assim, uma resistência feroz contra a colonização ardia nos corações dos conquistados.
Além do Mar Berserk que divide os continentes Norte e Sul, havia outros grandes mares: o Mar da Névoa a oeste da República Intis, o Mar Sônia a leste do Reino Loen, o Mar do Norte ao norte do Império Feysac e o Mar Polar ao sul do Continente Sul. Eles eram conhecidos coletivamente como os Cinco Mares.
De todas as nações do Continente Norte, o Reino Loen era a mais forte, com a República Intis logo atrás. O Império Feysac, derrotado na última guerra, caiu para o quarto lugar. O Reino Feynapotter subiu para o terceiro lugar. E entre os países da região centro-sul, Lenburg reinava supremo.
Comparado ao povo simples de Cordu que só conhecia a República Intis, o reino Feynapotter e Lenburg, Lumian era praticamente um cartógrafo.
Na verdade, não era nenhuma surpresa, considerando que os pastores da Vila Cordu só viajavam para os reinos vizinhos de Feynapotter e Lenburg. Eles tinham apenas uma compreensão limitada dessas terras. As pessoas nas aldeias do norte da região de Dariège eram igualmente provincianas. Além dos assentamentos vizinhos, eles só podiam citar Trier, Suhit e alguns outros centros metropolitanos.
Lumian ficava muitas vezes perplexo. Como Aurore adquiriu um conhecimento tão vasto?
Todos os livros que ele lia foram escritos por Aurore, e todos os seus exames práticos foram preparados por ela. Aurore tinha uma resposta para cada pergunta dos livros que lia!
Mas o que o surpreendeu ainda mais foi a experiência dela em diversas formas de combate.
Era simplesmente surpreendente que uma mulher na casa dos vinte anos pudesse acumular tanta sabedoria. Algumas pessoas não conseguiram acumular tanto conhecimento mesmo depois de viverem 50 ou 60 anos.
“Será que estes são os pilares de um verdadeiro Bruxo?” Lumian ergueu os olhos novamente e olhou para Aurore, perdido em pensamentos.
Enquanto Aurore dava tapinhas nas bochechas enquanto lia, ela dificilmente parecia uma estudiosa ou uma Bruxa.
Aurore captou o olhar de Lumian e perguntou: — O que você está olhando?
Lumian rapidamente mudou de assunto: — Da última vez você mencionou que possuo o conhecimento necessário para passar no vestibular?
Aurore ponderou por um momento antes de responder: — Em teoria, você poderia ser admitido em qualquer universidade, mas como nunca fiz esse exame específico, não posso dizer com certeza quais perguntas serão feitas. Roselle certamente fez um grande estrago na população. Fuuu, acho que é uma coisa boa…
Sem dúvida, o reinado do Imperador Roselle gerou o exame de admissão à faculdade, e continua sendo um elemento constante da vida acadêmica até hoje.
A mente de Aurore mudou de repente. Ela lançou um sorriso malicioso para Lumian e perguntou: — Por que você não fez sua parada habitual no bar hoje para presentear os clientes com suas histórias?
— Não sou um alcoólatra de verdade, — respondeu Lumian enquanto folheava sua revista. — Ler em casa é igualmente agradável.
“E ajuda a acalmar meus nervos e aliviar minha mente…” Lumian acrescentou silenciosamente.
Aurore assentiu e olhou para o lugar de Lumian no canto da sala.
— Por que você está sentado tão longe, fingindo pena, fraqueza e desamparo?
— Chegue mais perto. Você precisa de iluminação adequada para ler à noite, caso contrário, seus olhos sofrerão.
“Aurore com certeza tem jeito com as palavras,” Lumian refletiu. “Embora eu entenda o significado por trás de ‘lamentabilidade’, ‘fraqueza’ e ‘desamparo’, ainda é uma combinação estranha.” Supostamente acostumado com suas gírias, Lumian pegou uma cadeira e aproximou-se da mesa onde Aurore estava sentada.
Os dois passaram a noite lendo em silêncio, conversando ocasionalmente, enquanto o som de suas respirações se misturava ao farfalhar das páginas e à brisa suave que soprava de fora da janela. Pacífico e relaxante.
Ao desejar boa noite a Aurore, Lumian voltou para seus aposentos.
Ele tirou o casaco e colocou-o nas costas da cadeira. Ele não podia arriscar levar a carta Varinha para a cama; isso só levantaria suspeitas, e sua irmã jurou ficar de olho nele o tempo todo.
Quando estava prestes a se aproximar da cama, Lumian congelou, seu coração disparou.
Seus olhos penetrantes percorreram a sala e ele ajustou a cadeira que normalmente ficava posicionada em um ângulo diagonal para ficar de frente para a janela.
Então, deitou-se na cama e apagou o lampião de querosene que estava no armário ao lado dele.
Enquanto mergulhava nas profundezas do sono, Lumian de repente acordou assustado.
O quarto estava envolto em uma névoa densa e cinzenta.
Lumian, que já estava mentalmente preparado, observou calmamente o ambiente e percebeu.
A cadeira que ele arrumou meticulosamente antes de dormir ainda estava posicionada em um ângulo em seu sonho, assim como estivera na realidade no passado.
Isto sugeria que o mundo dos sonhos em que havia entrado não era um reflexo exato da realidade. Talvez tenha sido uma manifestação de seus desejos subconscientes mais profundos. Embora Lumian não conseguisse decifrar o seu significado, ele sabia que era algo para ser lembrado.
Ele foi até a janela, colocou as mãos no parapeito e olhou para fora.
A montanha feita de pedras vermelho-acastanhadas e solo marrom-avermelhado, e os edifícios desabados que a cercavam, ainda estavam presentes.
O estranho silêncio do lugar era ensurdecedor.
O tempo passou rapidamente. Depois de muita reflexão, Lumian tomou uma decisão firme.
Ele embarcaria em uma exploração preliminar da área esta noite!
Sua vida passada nas ruas o transformou em um homem de ação.
Ele não desceu correndo, no entanto. Em vez disso, abriu o armário e começou a empilhar roupas.
Ele não precisava delas para se aquecer, mas queria aumentar sua capacidade de defesa dessa forma.
Ele pegou uma camisa de algodão, calças de algodão e uma jaqueta de couro, esticando o corpo para sentir o ajuste. Qualquer roupa a mais só atrapalharia sua agilidade, e isso era crucial em uma situação como essa.
Ao se ajustar ao seu estado atual, Lumian teve um pensamento repentino.
“Esse é meu sonho. Não posso conseguir o que quero?”
Com essa intenção, murmurou para si mesmo: — Quero um peitoral e um revólver… quero um peitoral e um revólver…
A sala ainda estava envolta em uma névoa fina e cinzenta.
“Isto não serve. Esse sonho é especial…” Sua decepção era palpável, mas rapidamente recuperou a compostura e caminhou até a porta do quarto. Saindo para o corredor, ele se viu em completa escuridão. Estava escuro e sombrio.
Lumian abriu a porta do quarto de Aurore e depois do escritório. A organização era um pouco diferente da realidade, mas ele reconheceu imediatamente. A maior diferença, claro, era que Aurore não estava em lugar nenhum. A cena inteira ficou congelada em tons de cinza.
O primeiro andar não era diferente.
Lumian examinou os arredores, procurando uma arma para se defender. Ele conhecia sua casa melhor do que ninguém e rapidamente encontrou duas opções viáveis.
O primeiro era um tridente de aço com dois metros de comprimento. Aurore disse que era eficaz e excelente, desde que o alvo não tivesse uma arma de longo alcance.
O segundo era um machado de mão afiado e preto como ferro.
“Ah, por que não os dois…” Lumian não pôde deixar de pensar na frase tão repetida de Aurore, mas rapidamente descartou a ideia.
Hoje era reconhecimento. Ele precisava ser astuto, escondido nas sombras.
Carregar uma arma pesada apenas atrapalharia seus movimentos e o denunciaria.
Respirando fundo, Lumian se abaixou para pegar o machado.
Ele se levantou e caminhou em direção à porta, quase invisível na neblina.
Com mão hábil, abriu a porta, sem fazer barulho.
Circle of Inevitability - Capítulo Dez: – Sangue.
Quando Lumian saiu pela porta, ele sentiu como se tivesse sido transportado para outro mundo.
Diante dele não estava mais a familiar Cordu, mas o pico de uma montanha vermelho-escura e os edifícios desabados que o rodeavam. Juntos, formaram uma estranha ruína.
A névoa no céu era espessa e pálida, dificultando a entrada de luz. O chão estava destruído e havia muitas pedras. Lumian agarrou seu machado com força e avançou com cuidado, o coração batendo forte no peito. Ao longo do caminho, não conseguiu encontrar um lugar para se esconder.
Não havia ervas daninhas ou árvores.
Lumian caminhou com medo, todos os seus sentidos em alerta máximo. Tudo o que pôde fazer foi curvar as costas e se consolar. No mínimo, se houvesse algum perigo nesta área, seria óbvio à primeira vista. Ele poderia descobrir com antecedência.
Finalmente, ele chegou às ruínas, um prédio meio desabado que havia sido destruído pelo fogo.
Lumian examinou a área por um momento e confirmou provisoriamente que não havia outras criaturas à espreita. Satisfeito com sua avaliação, ele entrou cautelosamente no prédio, atento à madeira carbonizada que poderia cair a qualquer momento do ar.
Enquanto vasculhava a sala, seus olhos pousaram em uma panela quebrada no canto da casa. Havia um toque de ouro brilhando pelas rachaduras.
Lumian aproximou-se lentamente da panela e percebeu que era uma moeda de ouro.
“Pode ser verdade? Há realmente um tesouro nas ruínas do meu sonho?” Ele pegou a moeda de ouro e limpou-a no corpo.
Os padrões na superfície da moeda foram revelados.
A moeda apresentava o retrato de um homem esculpido na frente. Seu rosto era magro e seu cabelo estava repartido em 30-70. Havia um bigode em seus lábios e seu olhar era bastante firme. Na parte de trás havia um buquê de flores em torno do número 20.
Lumian reconheceu o homem retratado na moeda. Não era outro senão o primeiro presidente da República Intis, Levanx.
“Na verdade, é um Louis d’or…” Lumian ficou bastante surpreso.
Em primeiro lugar, ele não conseguia acreditar que a moeda nesta estranha ruína no sonho fosse na realidade a moeda da República Intis. E em segundo lugar, ele casualmente achou algo tão valioso quanto um Louis d’or.
Ele sabia que, nos dias de hoje, as moedas legais da República Intis eram o verl d’or e o coppet. Um verl d’or equivalia a 100 coppet.
Coppet existia na forma de moedas de cobre e moedas de prata. As moedas de cobre foram divididas em três categorias: 1 coppet, 5 coppet, 10 coppet, enquanto as moedas de prata tinham as denominações de 20 coppet e 50 coppet.
Verl d’or pode ser encontrada na forma de moedas de prata, moedas de ouro ou notas. Nas moedas de prata, havia denominações de 1,5 a 10 verl d’or, enquanto as moedas de ouro vinham em 5, 10, 20, 40 e 50 denominações.
As denominações das notas eram ainda mais variadas, variando de 5, 20, 50, 100, 200, 500, 1.000 verl d’or.
Na realidade, o povo do Intis ainda se apegava às antigas unidades monetárias. Por exemplo, as moedas de cobre de 5 coppet mais utilizadas eram conhecidas como ‘lamber’.
Da mesma forma, moedas de ouro no valor de 20 verl eram comumente chamadas de Louis d’or.
Na antiga era monetária, Louis d’or era conhecido como Roselle. Mas depois que a República foi estabelecida, o nome foi mudado para Louis d’or, a fim de apagar a influência do Imperador Roselle.
No entender de Lumian, mesmo na zona rural de Cordu, um Louis d’or poderia sustentar uma família pobre com campos durante um mês inteiro.
Ele sabia que sem a alta renda de Aurore, talvez nunca tivesse visto como era um Louis d’or. Na verdade, em toda a aldeia de Cordu, apenas os irmãos e a família do administrador tinham visto ou possuído um Louis d’or.
Para qualquer aldeão, este Louis d’or era um ganho incrivelmente valioso.
“Infelizmente, isso é apenas um sonho…” Lumian não pôde deixar de sentir uma pontada de decepção.
Isso era algo comum, tornando improvável que ele conseguisse retirá-la do sonho.
Mas mesmo assim, ele manuseou o Louis d’or com muito cuidado e respeito. Tendo passado grande parte de sua vida vagando, sabia o valor de cada coppet.
E sabia que um Louis d’or equivalia a 2.000 coppets, o que equivalia a uma libra de ouro no Reino de Loen, embora um pouco menos. De acordo com os jornais que leu, 24 verl d’or só podiam ser trocados por uma libra de ouro.
Lumian continuou sua busca por qualquer informação escrita que pudesse esclarecer as ruínas e sua história. Ele queria ver se este lugar correspondia a um determinado local na realidade e se uma aldeia da República Intis havia sido transportada para este mundo de sonho. A aparição do Louis d’or apenas alimentou sua curiosidade.
Enquanto Lumian se movia cautelosamente pelo prédio em ruínas, seus olhos caíram sobre um local onde antes havia um fogão, agora manchado com uma cor vermelho escuro.
— Sangue? — Suas pupilas dilataram quando ele rapidamente fez um palpite.
Imediatamente depois, fez um julgamento.
Embora não fosse fresco, ainda não havia escurecido — parecia que havia pingado ali dois ou três dias antes, ou talvez até mais recentemente!
Quando seu coração começou a disparar, Lumian de repente sentiu a luz ao seu redor diminuir, como se algo tivesse bloqueado silenciosamente a luz que se filtrava pela densa névoa vinda de cima!
A memória dos ataques passados inundou a mente de Lumian como uma onda turbulenta, fazendo-o reagir instintivamente.
Sem pensar, ele avançou e envolveu seu corpo no ar, rolando no chão para evitar qualquer perigo potencial.
Thud!
Um baque alto ecoou pelo ar quando algo pesado caiu atrás dele.
Lumian rolou rapidamente para o lado esquerdo do fogão em ruínas, usando uma pedra próxima para se apoiar.
Ao se levantar, com o machado em punho, viu uma figura adicional parada onde estivera momentos antes.
A luz fraca tornava difícil discernir se era humano ou algum tipo de criatura humanoide.
A figura curvada na frente de Lumian era diferente de tudo que ele já tinha visto antes. Era um monstro, sem roupas ou sapatos dignos de nota. Sua pele foi arrancada, revelando os músculos vermelhos, as veias e a fáscia amarelada abaixo. Líquido pegajoso escorria de seu corpo, mas não caia no chão.
Era um monstro!
Seus olhos pareciam estar cravados em seu rosto e sua boca aberta com toda a força, revelando dentes irregulares e uma longa baba de saliva.
Apesar de todas as histórias de fantasmas que Lumian inventou no passado, nunca esperou encontrar um espírito tão maligno na vida real.
Swoosh!
O fedor de sangue encheu as narinas de Lumian enquanto a respiração ofegante do monstro enchia seus ouvidos.
O instinto tomou conta de Lumian enquanto ele se esquivava para o lado, evitando por pouco o ataque do monstro vermelho-sangue.
Lumian sabia que tinha a orientação de Aurore e anos de experiência lutando nas ruas para agradecer por seus reflexos rápidos. Sem eles, ele poderia não ter sido capaz de reagir a tempo.
Respirando fundo para se acalmar, Lumian atacou o monstro que o atacou. Com seu machado afiado na mão, ele balançou com toda a força e atingiu o monstro nas costas.
O machado de Lumian derrubou o monstro no meio do giro, espalhando um jato de pus e sangue em todas as direções.
Sem hesitar um momento, Lumian ajoelhou-se e ergueu novamente o machado, pronto para desferir outro golpe.
Bang! Bang! Bang!
Repetidamente, Lumian brandiu seu machado com precisão e força, cada golpe cortando a carne do monstro e deixando rachaduras profundas e largas na parte de trás de sua cabeça, pescoço e costas.
Finalmente, o monstro ficou imóvel, derrotado pela feroz saraivada de golpes de Lumian.
— Huff! Huff! Você não é tão assustador quanto parece. — Lumian soltou um suspiro de alívio, sua voz tingida com um toque de zombaria.
Ele enxugou o rosto com a mão esquerda e depois a usou para limpar o sangue da outra mão.
— Os fluidos corporais deste monstro são venenosos? Por enquanto, não sinto dor pelos fluidos me corroendo… — Lumian começou a se preocupar com outro problema.
Assim que Lumian reuniu coragem e estava prestes a revistar o corpo do monstro, ele foi pego de surpresa por um movimento repentino. O monstro sem pele e cor de sangue apoiou-se com as duas mãos e saltou novamente, como se ainda estivesse vivo.
“Ainda não está morto?”
Apesar de ter sido reduzido a tal estado, parecia que o monstro ainda estava vivo.
Lumian ficou chocado e com medo.
O medo e a ansiedade tomaram conta de Lumian.
Se Lumian estivesse enfrentando humanos, feras ou monstros normais, ele não teria ficado com tanto medo, mesmo que não pudesse derrotá-los. Mas esse monstro à sua frente parecia impossível de matar, tornando inútil cada movimento de Lumian.
Aproveitando a breve desorientação do monstro, Lumian tomou uma decisão rápida. Ele se apoiou nos pés, exerceu força sobre os joelhos e correu descontroladamente.
Thud! Thud! Thud!
Ele correu com todas as suas forças, mas podia sentir a respiração do monstro em sua nuca, e o som de sua respiração pesada ecoava em seus ouvidos.
O monstro seguiu de perto atrás dele.
Apesar do medo, Lumian cerrou os dentes e permitiu que o medo o incentivasse a correr ainda mais rápido, superando seus limites anteriores.
Para sua alegria, ele logo percebeu que a distância entre ele e o monstro não estava mais diminuindo.
Thud! Thud! Thud!
Lumian finalmente chegou ao seu prédio semi-subterrâneo de dois andares quando abriu a porta destrancada e pulou para dentro.
Com um barulho alto, ele bateu a porta e rapidamente foi até o fogão, onde pegou o tridente de aço que estava encostado na parede.
Então se concentrou na porta.
Mas então, ouviu o som dos passos correndo do monstro desaparecendo. Ele esperou, mas o monstro não tentou arrebentar a porta.
“Ele sabe que é uma armadilha?” Lumian não conseguia acreditar que o monstro tivesse inteligência superior.
Ele lentamente se moveu em direção à janela perto da porta e espiou para fora.
De repente, um rosto apareceu no vidro — uma bagunça sangrenta, sem pele e com dentes irregulares.
Lumian congelou por um momento, seu coração quase parou.
Para surpresa de Lumian, o monstro não tentou quebrar o vidro nem atacá-lo. Em vez disso, simplesmente encontrou seu olhar.
Lumian saiu do torpor e recuou, brandindo o longo garfo com as duas mãos.
O monstro saiu da janela.
Lumian observou com cautela, observando seus movimentos enquanto permanecia na névoa fina por um tempo antes de finalmente recuar de volta para as ruínas.
Lumian estava perdido.
Ele estava preparado para prender o monstro e escapar rapidamente do sonho, mas a criatura simplesmente saiu sem atacar.
Depois de pensar um pouco, uma possibilidade ocorreu a Lumian. Talvez o monstro tenha medo de entrar na minha casa?
“Sim, não há nenhum sinal de dano à casa…”
“No sonho, este é um lugar absolutamente seguro?”
Com essa percepção, Lumian sentiu uma sensação de alívio tomar conta dele.
Lumian foi atingido por uma onda de exaustão no segundo seguinte.
A curta perseguição exigiu mais dele do que uma tarde inteira de treinamento de combate.
Lumian subiu as escadas até seu quarto, segurando firmemente o tridente e o machado nas mãos. Ao se deitar na cama, Lumian tentou adormecer.
Lumian abriu os olhos, sentindo-se desorientado e tonto.
Fora das cortinas, ainda estava escuro e a sala estava envolta em sombras.
Por um momento, Lumian não conseguiu dizer se ainda estava no mundo dos sonhos ou se de alguma forma havia retornado à realidade. Mas então percebeu a falta da névoa cinza e o fato de estar de pijama, e percebeu que devia ter acordado.
— Acordei cedo por causa do susto, — Lumian murmurou para si mesmo, inconscientemente dando tapinhas no bolso do pijama. Mas quando não sentiu o peso do Louis d’or, sentiu uma pontada de decepção.
Confirmou outro fato: que o dinheiro não poderia ser retirado do mundo dos sonhos!
Lumian respirou fundo e se recompôs, seus pensamentos se voltando para um problema sério:
Como ele deveria lidar com aquele monstro impossível de matar?
Embora Lumian soubesse que poderia contornar a área e entrar furtivamente, também sabia que esta não era uma solução de longo prazo. A possibilidade de encontrar monstros semelhantes no futuro sempre esteve presente, e ele não podia se dar ao luxo de arriscar sua vida por estar despreparado.
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